terça-feira, 27 de novembro de 2007

Greve de idéias

O sindicato dos roteiristas dos EUA está em greve e pára entretenimento americano.

A etapa mais importante da pré-produção de um filme é o da produção do roteiro. Ele representa a idéia e como esta idéia será trabalhada. Por isso, o anúncio da greve do sindicato dos roteiristas dos EUA (WGA), no início deste mês, significa um grande perigo as produções de cinema e televisão ianques.

Os roteiristas lutam por um pagamento maior pelas vendas de DVDs e de parte dos lucros gerados pela venda de programas de TV e filmes na internet. Os grandes estúdios não pretendem acatar as exigências, afirmando que elas podem "atrasar tentativas de explorar novas mídias".

A situação é complicada porque não afeta simplesmente as salas de cinema e a televisão, mas todo o mercado que gira em torno deles. Tanto que o ex-ator e atual governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, entrou oficialmente nas negociações, no papel de mediador. Ele está preocupado com o forte golpe que a economia do condado sofrerá com a parada do mercado cinematográfico.

A última greve do WGA ocorreu em 1988. Na época, o panorama foi parecido: séries de TV e filmes parados. Um detalhe interessante foi que a premiação do Oscar daquele ano também acabou diretamente afetada: para aqueles que não sabem, os monólogos dos apresentadores de premiações também são produzidos por roteiristas. Na cerimônia, o ator Chevy Chase teve que improvisar o texto de abertura da festa e foi considerado um clamoroso fracasso. Se a greve não terminar em pouco tempo, a festa de 2008 pode passar pela mesma situação.

Recebendo o apoio do sindicato dos atores (SAG) e da opinião pública, os roteiristas dificilmente irão ceder e pretendem manter a greve até quando for necessário. No último dia 27, estúdios e sindicato voltaram a se reunir. Segundo o blog de uma porta voz extra-oficial da WGA, Nikki Finke, os dois lados parecem estar aproximando-se de um acordo. Bom para aqueles que não passam a semana sem assistir sua série favorita ou um bom filme no cinema.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Faltou coragem

A Warner cancelou o lançamento do filme Valente no Brasil.

O novo projeto da excelente atriz Jodie Foster e do renomado diretor Neil Jordan, Valente (inexpressivo título nacional para The Brave One), não será lançado nos cinemas brasileiros. Segundo a Warner, o filme - que iria estrear nas telonas daqui no feriado de Finados - será distribuído diretamente em DVD.

O provável motivo para o cancelamento da estréia de Valente no país é o fraco desempenho nas bilheterias norte-americanas. Apesar de ter liderado a arrecadação na sua semana de estréia (14 milhões de dólares), a produção caiu e acabou rendendo apenas 34 milhões.

Valente causou polêmica nos EUA ao ressuscitar a polêmica sobre a "justiça com as próprias mãos" e o armamento da população. Trata-se de um drama psicológico onde Foster interpreta uma radialista de Nova York que está noiva. Sua felicidade termina no dia em que sofre um ataque de meliantes. Ela fica gravemente ferida e o seu noivo morre. Então, passa a perseguir atormentadamente (e matar) homens que considera culpados do crime. Um detetive - interpretado por Terrence Howard - vai perseguir a "vigilante".

A crítica norte-americana ficou dividida. Alguns acharam um filme corajoso e dramático, focado na figura atormentada da protagonista. Outros, criticaram a mensagem perigosa da trama e apontaram semelhanças do longa com o clássico Desejo de Matar (1974), protagonizado pelo ator cult Charles Bronson. Eu sou um dos inúmeros fã do filme com Bronson, que, como o crítico Roger Ebert afirma, "causa um certo fascínio no público".

É uma pena que os brasileiros não tenham a oportunidade de ver o filme nas telonas, já que a atuação de Foster está cotada para o Oscar (ela já ganhou dois, por Acusados e O Silêncio dos Inocentes), assim como a de Howard para coadjuvante (já indicado como ator principal por Ritmo de um sonho). A única chance de conferir Valente no cinema é a exibição durante o Festival de Cinema de São Paulo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O ano em que meus pais saíram de férias

O ano em que meus pais saíram é um filme emotivo e simples, uma escolha correta para ser o representante nacional no Oscar de melhor filme estrangeiro.

Hoje, O ano em que meus pais saíram de férias já é muito mais do que o segundo filme dirigido por Cao Hamburger. A produção venceu (segundo jurados, de forma unânime) a seletiva organizada pelo Ministério da Cultura para se tornar o candidato oficial do Brasil ao Oscar de melhor filme em língua não-inglesa.

O filme conseguiu bater o favoritismo do "fenômeno" Tropa de Elite, a produção nacional mais comentada dos últimos anos. Os dois longas são extremamente diferentes entre si. Tropa um é o relato cruo da violência reinante no país. Já O ano... é uma história terna, porém firme, sobre um período de opressão latente.

A história do filme tem como pano de fundo o auge da ditadura militar e a Copa do Mundo de 1970. Mauro é um garoto de 12 anos apaixonado por futebol, mas que vê sua vida mudar quando seus pais, subitamente, saem de férias (na verdade, são perseguidos pelo regime opressor) e deixam-no aos cuidados de seu avô. A partir deste momento, ele faz amizade com o vizinho Shlomo, um idoso judeu.

O grande trunfo da produção é a sua semelhança com o jovem protagonista. Assim como uma criança de 12 anos, o filme é dominado por uma aura de sensibilidade, sutileza, ternura e sinceridade. Ainda é digno de nota as ótimas atuações (destaque para o garoto Michel Joelsas e os veteranos Germano Hauit e Paulo Autran - recém-falecido), o trabalho de fotografia realizado por Adriano Goldman e o amadurecimento de Cao Hamburger como diretor de cinema.

Muitos consideraram a escolha de O ano em que meus pais saíram de férias injusta (com Tropa de Elite). Independente disto, o filme é muito bom e merece maior atenção do público brasileiro. Trata-se de uma visão sutil, sensível e franca sobre um momento obscuro da história nacional.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Superbad - É hoje

Definitivamente, um novo clássico teen. A melhor comédia da temporada.

Nesta sexta-feira (19/10), estréia nos cinemas brasileiros o último grande blockbuster do verão norte-americano: Superbad - É Hoje!. A comédia teen com um roteiro aparentemente comum surpreendeu com excelente aceitação entre a crítica especializada. As bilheterias confirmaram o sucesso: só nos EUA, o filme arrecadou 120 milhões de dólares - seis vezes o valor gasto com a produção.

A trama é centrada nos amigos Seth e Evan, dois garotos não-populares que estão concluindo o high school. Eles acabam sendo convidados para a festa de formatura da garota mais popular do colégio. No entanto, para entrar nela, eles terão que "descolar" a bebida. O filme narra a busca deles pelo álcool e todas as suas amalucadas conseqüências.

Superbad é o filme com maior número de piadas em muito tempo. São quase ininterruptas e todas funcionam - das mais grosseiras até as mais sutis. E existe muita escatalogia aqui. Mas, como nas obras recentes de Judd Apatow (que produz este filme), essas grosserias são usadas em favor de um conjunto maior, extremamente afinado, hilário e inteligente. Existem situações e diálogos antológicos para o nível das teen comedies, tudo concebido com o cuidado de um filme que nasce predestinado ao rótulo de "clássico" de seu gênero.


O roteiro de Seth Rogen (o protagonista de Ligeiramente Grávidos) e seu amigo de infância, Evan Goldberg, é certeiro e guarda uma fina análise da amizade masculina e dos problemas de ser um adolescente nos EUA, mais evidente no fim da projeção. As atuações são ótimas, com destaque para Christopher Mintz-Plasse, intérprete de Fogell, mas que ficou mais conhecido por McLovin - um geek tão memorável quanto os clássicos dos filmes oitentistas de John Hughes. A direção de Greg Mottola reverencia a qualidade do roteiro.

A companhia de um filme tão memorável e carismático deixa o público "órfão" depois dos 116 minutos de projeção. Fica um gosto de quero mais. Até porque o terceiro ato, que (como já disse) analisa o drama de ser um "quase adulto"e os vínculos da amizade, funciona tão bem quanto a parte mais bem humorada da trama.
Superbad "nasce" no mesmo patamar de clássicos absolutos das comédias teen, como as obras de John Hughes nos anos 80 (Curtindo a vida adoidado) e o memorável O Clube dos Cafajestes (1978). Trata de mais do que ótimas piadas, é um retrato original do adolescente de nosso tempo e das dificuldades que isso acarreta. Docemente desbocado e absolutamente brilhante.

Resident Evil 3 - A extinção

Pouca coisa funciona. Mantém a tradição de filmes fracos da cinessérie.

O cinema comercial da atualidade já atestou que adaptar um jogo de vídeo-game para o cinema é uma tarefa ingrata, bastante desafiadora. Isso pode servir de alento para os produtores de Resident Evil 3 - A extinção, mais um fracasso na tentativa de "diálogo" entre os consoles e a tela grande.

O filme segue um comboio de sobreviventes ao vírus experimental produzido pela Corporação Umbrella. Eles querem chegar ao Alasca, onde acreditam que estarão protegidos. Enquanto isso, a heroína Alice (Milla Jovovich) é perseguida por cientistas.

Resident Evil 3 - A extinção fracassa porque soa como um "vídeo-game exibido no cinema", e não necessarimente como um filme. Lembrando um jogo de console, o roteiro é tratado como um coadjuvante das seqüências de ação. O roteirista Paul W. S. Anderson "ajuda" com sua mediocridade costumeira na qualidade do texto final.

Ao que parece, nenhum dos produtores lembrou de um detalhe óbvio: nos games, a interação do consumidor na ação pode compensar a falta de um argumento consistente. Nas "telonas", não. Por isso, o terceiro filme Resident Evil resulta fraco e nunca convence enquanto cinema.

O diretor Russell Mulcahy (que dirigiu o ótimo cult oitentista Highlander) pouco faz diante do limitado material. Nas cenas de ação, não consegue sobresair-se com uma filmagem totalmente previsível. O uso exagerado de câmeras lentas por parte de Mulcahy é o único motivo para que A Extinção dure 97 minutos. E, como já virou um clichê, a edição é frenética.

Para não dizer que tudo deu errado, podemos ressaltar o trabalho de direção de arte: uma ambientação interessante e satisfatória de Marco Niro. Além disso, a atriz/modelo Milla Jovovich continua convencendo como heroína de filmes de ação. Ainda assim, muito pouco para um filme que custou 50 milhões de dólares e já deixa o caminho para outra seqüência.

Ligeiramente Grávidos (Knocked up)

Ligeiramente Grávidos é outra grande prova do talento de Judd Apatow

Em 2005, Judd Apatow dirigiu e roteirizou um filme de grande sucesso chamado O Virgem de 40 anos. A produção utilizava-se do politicamente incorreto de maneira inteligente e as sempre presentes escatalogias eram parte integrante de um longa afinado e hilário. Por isso, causou tanto burburinho em um mercado cada vez mais convencional.

Dois anos depois, Apatow chega denovo aos cinemas com esse Ligeiramente Grávidos. Felizmente, o diretor conseguiu alcançar as altas expectativas de público e crítica. Esse segundo filme do realizador é tão bom ou melhor do que seu debut, mais uma prova de seu talento singular no ramo da comédia.

O filme conta a história de Alison Scott, profissional dedicada e com futuro próspero na carreira em um canal de TV. Comemorando sua recente promoção, ela sai para uma "balada" e (depois de muitos drinques) acaba indo para a cama com o irresponsável Ben Stone. Alison espera que a noite seja rapidamente esquecida. Como o título explica, ela mudará a vida dos dois personagens.

Em Ligeiramente Grávidos, Apatow reafirma características que deverão pautar sua forma de conceber um filme: a não utilização de closes e takes fechados (o que prova que Apatow confia em seu roteiro e não recorre a piadas "fáceis" e físicas), a boa sintonia com os atores, a comédia derivada do constrangimento, os diálogos espertos e estruturados em gradação.

Katherine Heigl (recém premiada com o Emmy de melhor atriz coadjuvante em série dramática) oscila com talento entre os momentos dramáticos e cômicos da trama, algo muito difícil. Seth Rogen sempre soa perfeito para o papel de Ben Stone. Entre os coadjuvantes, Leslie Mann (Debbie) e Paul Rudd (Pete) provam novamente suas qualidades, especialmente o segundo.

Além dos 150 milhões arrecadados nas bilheterias dos EUA, Ligeiramente Grávidos conseguiu grande aceitação também entre os críticos. Eles cogitam até mesmo uma indicação ao Oscar de roteiro original para Apatow. Não seria um absurdo, é possível, mas bem improvável. Apesar de não acreditar, estou na torcida. É a melhor comédia de 2007, até o momento.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Cinema nacional passa por crise

A diminuição do público de filmes nacionais coloca em risco o futuro do setor no país.

O mercado cinematográfico brasileiro está vivendo sua maior crise desde a chamada "retomada" - ocorrida na segunda metade da década de 90 - devido a queda progressiva de espectadores das produções nacionais.

Os números chegaram a níveis alarmantes nesse ano. A participação de filmes brasileiros na arrecadação total dos cinemas no país caiu quase 3%, em relação ao ano passado. Em números brutos, isso significa que as produções nacionais desse ano juntas ainda não alcançaram sequer a bilheteria que o "fenômeno" Dois Filhos de Francisco fez sozinho em 2005.

A lista das dez maiores bilheterias do ano no país só inclui um filme produzido no Brasil: A Grande Família - O filme, assistido por pouco mais de dois milhões de espectadores e criticado pela exagerada influência "televisiva". Caso este seja o maior público de um longa brasileiro em 2007, será a pior performance de um recordista de bilheteria nacional nessa década. Veja lista dos maiores públicos de filmes brasileiros na década.

A queda de público tem um vilão principal: o avanço da pirataria. Tropa de Elite, o último filme brasileiro de 2007 com grande potencial de rendimento, já sofre com a pirataria antes mesmo de ser lançado. Enquanto outros dois filmes promissores, Cidades dos Homens - O Filme e O Primo Basílio, decepcionaram nas bilheterias, aparentemente mais interessado nos blockbusters ianques.

Em meio a todo esta crise, um ponto positivo: nunca o Brasil fez tantos filmes em um único ano. Estima-se que o país produziu cerca de 100 produtos cinematográficos apenas em 2007 (fonte: Diário do Nordeste). No entanto, já há quem defenda que a produção deve ser reduzida. Afinal, se a tendência se mantiver, não teremos público para consumir tantos filmes.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Paranóia (Disturbia)

Um pacote despretensioso e divertido. Agrada porque não tenta ser mais do que é.

No último fim de semana, assisti a dois filmes rotulados como "suspense" totalmente diferentes em si. Um foi Fora do Rumo (Derailed - 2005) e outro foi Paranóia (Disturbia - 2007), recém-lançado nos cinemas brasileiros. O primeiro vem cheio de auto-importância, considerando-se bem melhor do que realmente é. Não por acaso, é totalmente desagradável e insatisfatório: cheio de reviravoltas óbvias guiadas por uma direção apática, desperdiçando o ótimo elenco liderado pelo casal Clive Owen e Jennifer Aniston.

O grande trunfo de Paranóia, um dos grandes blockbusters da temporada, é a forma como foi tratado. Nunca se considera maior ou se propõe a ser melhor do que realmente é. No fim das contas, são pouco mais de 100 minutos de uma diversão despretensiosa, com deslizes previsíveis, porém resultado ligeiramente agradável e satisfatório.

A produção conta a história de Kale (Shia LaBeouf), um garoto traumatizado pela morte do pai e condenado a três meses de prisão domiciliar após esmurrar seu professor de espanhol. Privado pela mãe de todas as suas diversões habituais, o jovem encontra no ato de espionar os vizinhos um interessante passar o tempo. Tudo se complica quando Kale começa a suspeitar que um dos "espionados" é, na verdade, um assassino.

O diretor DJ Caruso leva maioria do filme no "piloto automático", raramente imprimindo um estilo próprio. Essa é uma característica já conhecida do diretor, advindo da TV e responsável pelo questionável Roubando Vidas e o razoavelmente eficiente Tudo por dinheiro. Em Paranóia, os (poucos) momentos mais emotivos são muito fracos e dispensáveis. Porém, Caruso consegue em uma cena específica (quando os jovens invadem a casa do suposto assassino) um resultado altamente tenso e frenético, naquele que é o grande momento do filme.

O roteiro de Christopher B. Landon e Carl Ellsworth possui problemas. Existem momentos pouco efetivos e mal trabalhados, mas que não chegam a comprometer o filme. Além disso, o unilateralismo do suspeito nunca consegue suscitar dúvida no público quanto a sua inocência. Essa era uma das maiores virtudes da produção que inspirou Paranóia - o clássico de Hitchcock Janela Indiscreta. No entanto, qualquer comparação entre ambos é uma covardia. A obra de 1954 é um suspense infinitamente mais denso do que sua versão contemporânea.

Shia LaBeouf carrega o filme com seu grande carisma e razoável talento, conferindo grande simpatia à Kale. David Morse aparece devidamente intimidador como o vizinho-suspeito. No papel de Ashley - interesse romântico de Kale -, Sarah Roemer pouco faz: apenas embeleza a tela e aparece em momentos estratégicos da trama. Interpretando Ronnie, Aaron Yoo é o (exagerado) alívio cômico do filme. O ponto negativo fica para a veterano Carrie Ann Moss (Matrix), terrivelmente inexpressiva como a mãe de Kale.

Paranóia não é uma obra de arte. Provavelmente, não mudará sua vida. No entanto, durante o tempo que estiver na sala de cinema, a produção te proporcionará eficiente diversão sem compromisso. Para os padrões de hoje em dia, isso já é um bom custo-benefício.



quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Série - Jogos Mortais

Inegável sucesso comercial, a série Jogos Mortais é o símbolo do atual cinema de horror.

Todos os gêneros cinematográficos passam por fases. Juntam-se a novas tendências, aproveitam técnicas recém-desenvolvidas e, principalmente, moldam-se ao gosto do seu consumidor. Isso faz com que, inevitavelmente, os filmes de um mesmo gênero mudem muito de época para época. O cinema de horror não foi/é diferente.

Na segunda metade dos anos 50, imperava produções de terror intimamente ligadas com a ficção científica - o que acabou rendendo uma centena de filmes (hoje) classificados como "B". No início dos anos 70, o horror seguiu uma linha psicológica, produzindo clássicos absolutos como O Exorcista. Já no final dos anos 70 e percorrer dos 80, o gênero viveu seu auge comercial, dominando as bilheterias. Os serial killers tornaram-se ícones da cultura pop e originaram franquias intermináveis, como Freddy Krueger e seu A hora do pesadelo.

Hoje, o espectador mudou. Em muito por causa da falta de qualidade dos diretores e roteiros, que passam filmes inteiros sem arrancar um susto decente do público e sempre recorrem ao uso do sobe-som exagerado para surpreender. Hoje, a ordem não é mais assustar, mas sim chocar. E a maior prova dessa nova fase é a série de filmes Jogos Mortais, que está próxima do lançamento de seu quarto exemplar.

Nela sobram sangue, tripas e um instinto mórbido que causa efeito instantâneo naquele que assiste. Exerce uma quase inexplicável atração, levando enxurrada de pessoas aos cinemas. É a metamorfose do terror cinematográfico, cada vez mais sanguinolento e chocante dentro de sua proposta. Aliás, essa é uma tendência do gênero através do tempo: desde os anos 50 até agora, a quantidade de sangue e vísceras é crescente nas produções. O grande problema decorrente de tal tendência é que se perde o limite entre o divertido (anos 80) e mórbido (atual).
Os três filmes já lançados possuem características em comum: o visual sujo, o clima semi-claustrofóbico e a direção em ritmo de video-clipe, sem preocupações estéticas. O primeiro é superior às continuações por dois motivos: a concepção do "jogo" é nova ao público e o clima de suspense está mais presente. Os outros são diretamente influenciados pela descoberta do poder comercial da idéia, por parte dos produtores. Tudo fica mais chocante e polêmico.

A nova sequência deverá estar no mesmo patamar dos anteriores, respeitando o exagero progressivo. Mais absurdos, tripas e sangue, mostrado em um ritmo ainda mais frenético e pesado, aproximando-se dos clipes de rock apresentados na MTV. E continuar rentável aos produtores. Principalmente, com a publicidade ainda mais pesada: a nova foi atrelar a produção com uma campanha de doação de sangue. Pelo menos, essa foi original.

domingo, 2 de setembro de 2007

Saudades

Possuídos marca o retorno do diretor William Friedkin aos holofotes. E ele traz junto um gênero esquecido.

Para aqueles que conhecem o cinema dos anos 70, William Friedkin é um nome bem importante. Ele ganhou o Oscar pela direção do clássico policial Operação França. Além disso, em 1973, dirigiu um dos maiores clássicos do cinema americano: O Exorcista. Enfim, é um grande diretor.

Pena que, depois da década citada, ele quase desapareceu. Fez um filme digno de atenção nos anos 80 - Viver e morrer em Los Angeles - e, de resto, muito pouco.

Por isso, Possuídos - tradução medíocre para o título original (Bug) - pode ser encarado como o retorno do cultuado diretor. Friedkin tem uma direção enérgica e conduz seus atores a grandes atuações. Não à toa, o filme causou frisson no último Festival de Cannes, levando o prêmio principal da Quinzena dos Realizadores.

Friedkin traz consigo ainda um gênero que parecia quase extinto: o suspense/terror psicológico (O Exorcista é um dos maiores exemplares deste gênero). Muito comum durante uma época contestadora da sociedade americana, que também representou o auge do diretor, o terror psicológico declinou com o crescimento do caráter comercial do cinema: menores censuras prévias, estilo convencional e a diminuição brutal do papel social das produções.

O filme é adaptação de uma peça teatral off-Broadway. Nele somos apresentados a Agnes White (Ashley Judd, em uma das melhores atuações da carreira), uma mulher solitária atormentada com a possibilidade do retorno do ex-marido, recém-libertado da prisão. Ela começa uma relação com Peter Evans (Michael Shannon, familiarizado com o papel que já tinha interpretado no teatro), um veterano de guerra com passado obscuro.

A primeira hora é toda baseada em diálogo. Friedkin utiliza tal tempo para criar um clima altamente tenso e claustrofóbico, intenso e totalmente eficiente. Aqui, fica clara a habilidade que o diretor possui para conduzir o gênero. Quando chegamos ao terceiro ato, a efetiva "ação", já estamos imersos a uma atmosfera nervosa, insana e auto-destrutiva.

Impressionante o dinamismo que o realizador imprime a obra, apesar de ela se passar em 95% do tempo no mesmo cenário - dentro de um quarto de hotel. A forma de filmar lembra (em talento e eficiência) o terceiro ato de O Exorcista, que é também quase todo em um cômodo. Certeira também é a mixagem de som, que beira a perfeição. O filme é tão singular positivamente que até certos deslizes no diálogo ("rei" e "rainha", no final do filme) são perdoáveis. Saber que William Friedkin voltou, tão bem quanto antes, é superior a qualquer erro.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Sem contra-indicações

Sem Reservas é o filme mais adorável do ano. Tudo funciona perfeitamente bem nessa fórmula bem açucarada.

Não há gênero cinematográfico mais batido em Hollywood do que a comédia-romântica. Roteiros simples e "açudarados", sem grandes pretensões, são especialidade da indústria cinematográfica norte-americana. Como esses filmes se diferenciam entre si? Pela competência de quem trabalha as idéias: atores e equipe técnica. É neste ponto que Sem Reservas, lançado recentemente nos cinemas brasileiros, consegue consolidar-se acima da média.

A personagem central da produção é Kate Armstrong (Catherine Zeta-Jones), regrada e perfeccionista chef de um sofisticado restaurante de Nova York. A vida dela muda profundamente quando sua irmã morre, deixando uma menina pré-adolescente para Kate cuidar. Se isso não fosse o bastante, o restaurante contrata um sub-chef excêntrico para auxiliar a recatada protagonista.

Para quem conhece o gênero, não é preciso raciocinar muito para adivinhar o final do enredo. Aí reside o grande mérito do diretor Scott Hicks e da roteirista estreante Carol Fuchs: eles conseguem manter o espectador entretido, mesmo que com um final óbvio sendo pintado na tela. O público preocupa-se muito mais com os personagens do que com o final da trama.

As atuações são perfeitas. Zeta-Jones compõe com o máximo de competência a protagonista. Aaron Eckhart empresta seu grande carisma ao sub-chef Nick Palmer. E a prodígio Abigail Breslin (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por Pequena Miss Sunshine) surpreende no papel da orfã Zoe. Ela é o que de melhor o filme tem, com uma atuação irrepreensível e adorável. Tudo isso somado dá a Sem Reservas uma simpatia e elegância só alcançada quando a "fábrica de sonhos" de Hollywood acerta no alvo.

O ponto negativo do filme é sua época de estréia. Infelizmente, Sem Reservas foi jogado em uma temporada repleta de blockbusters, o que fez com que ele passasse despercebido para parte do seu potencial público. Até mesmo a fria recepção da crítica americana é reflexo do erro estratégico de lançamento.

Resumindo: Sem Reservas é a prova definitiva de que mesmo o mais convencional dos roteiros pode ser transformado em um grande filme através do trabalho competente de seus realizadores. Além de ser uma raridade: é um remake (do alemão Simplesmente Martha - 2001) que consegue ser superior a obra original.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Aprontando nas telonas

Sucesso absoluto na televisão, a família Simpson chega arrasadora aos cinemas.

Quando a série de animação Os Simpsons estreou na televisão americana, em dezembro de 1989, ninguém imaginava o enorme sucesso que ela faria. Na época, poucos acreditavam que um desenho animado pudesse sobreviver na grade de programação adulta.

Passados quase 18 anos da estréia, ninguém duvida do sucesso da "família amarela". A série não continua com um conteúdo tão descritivo quanto o das primeiras temporadas - em que representava a típica família classe média ianque -, mas ganhou status inegável de fenômeno da cultura pop (especialmente, o patriarca Homer). Até hoje mantém uma grande audiência, influência entre todas as faixas etárias e lugar cativo na grade do canal FOX.

Mais do que nunca, a série e seus personagens parecem à prova de um fracasso. Por esse motivo, Os Simpsons - O Filme finalmente saiu do papel, após muito tempo em análise. Para se ter uma idéia, o roteiro da produção foi revisado 158 vezes antes de ser considerado definitivo, em um trabalho de quase cinco anos.

O sucesso da telinha foi refletido nas telonas. Os Simpsons - O Filme arrecadou 71 milhões de dólares em sua semana de estréia em território norte-americano. Até agora, só nos EUA, o filme fez 160 milhões de dólares de bilheteria. Chegando ao Brasil na última sexta-feira (17), o longa-metragem de animação tem tudo para acabar com o reinado de Duro de Matar 4.0 nos cinemas nacionais, líder de arrecadação das últimas três semanas.

No filme, Springfield passa por tempos difíceis quando seu lago atinge níveis exorbitantes de poluição. Esse panorama é agravado ao Homer jogar os excrementos de seu novo animal de estimação no tal lago. Então, a família protagonista começa a ser perseguida pela população de sua própria cidade, agora isolada do mundo exterior por uma redoma de vidro (obra do governo americano).

O segredo do sucesso do filme é não inovar. Tudo é estruturado como um longo episódio do programa televisivo, com o mesmo nível de piadas. São 87 minutos que soam como televisão exibida no cinema. A fórmula agradará em cheio aos fãs. Já aos que não são, o impacto da produção dependerá diretamente da empatia que se tem com os personagens e a série.

Os Simpsons - O filme não é o exemplo mais interessante de cinema. Por outro lado, é exemplar quando o assunto é sucesso. Ou seja, tudo que os produtores queriam.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

O fator Willis

Duro de Matar 4.0 é um grande filme de ação com Bruce Willis. E o ator faz toda a diferença.

Os tempos mudaram, não os ícones. Tal tese vem sendo comprovada nas salas de cinema atuais. Depois do sucesso do magnífico Rocky Balboa, foi a vez do policial John McClane ser retirado da "aposentadoria". Depois de quase 20 anos do longa original, Duro de Matar 4.0 chega aos cinemas.

Só nos EUA, a produção arrecadou mais de 125 milhões de dólares. O site americano Rotten Tomatoes (que arquiva e "mede" críticas cinematográficas das publicações ianques) apurou 80% de aceitação para o filme. Duro de Matar 4.0 pode ser considerado um sucesso.

Nessa nova seqüência, McClane é um homem diante do fracasso familiar e sem prosperidade no trabalho. E, por uma questão de acaso (esse é o lema da cinessérie: John McClane é o homem certo, mas na hora errada), acaba envolvido em uma trama de terrorismo virtual que ameaça causar um grande blecaute nos Estados Unidos.

Duro de Matar 4.0 não traz inovações aos filmes do gênero ação/aventura. O tema condutor da trama (informática) já soa um pouco batido, apesar de inegavelmente atual. Porém, os fãs da série sabem que a força dela sempre residiu-se nas grandiosas (e inverossímeis) cenas de ação. Nesse ponto, o filme não economiza. McClane dá de frente com carros, caminhões, helicópteros e até um jato militar - tudo muito empolgante e bem feito.

No entanto, o grande trunfo do filme é Bruce Willis. Não há ninguém melhor para ser John McClane. A intimidade do ator com o papel fica explícita a cada cena, fazendo o revival valer a pena. Com a liderança segura de Willis, o elenco de apoio pouco precisa fazer. A melhor é, de longe, Mary Elizabeth Winstead - intérprete da filha durona de McClane.

O roteiro é cheio de piadinhas, na maioria do tempo, eficientes. Os exageros, como em todo exemplar de Duro de Matar, estão lá. No entanto, no fim das contas, é isso que faz um grande filme de ação - junto com um astro como o "veterano" Bruce Willis.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Clássicos - O show deve continuar (All That Jazz)

Os musicais tiveram seu grande momento no cinema americano dos anos 40 e 50. No período, as produções do gênero lideravam as bilheterias. O mundo mudou, o público mudou e o cinema seguiu essa mudança. Marcadamente a partir da década de 70, os musicais tornaram-se raridades. Produzido em 1979, All That Jazz é um dos longas-metragens do gênero que merecem honroso destaque.

O filme é uma semi auto-biografia do escritor/diretor/coreógrafo Bob Fosse. Ele figura entre os gênios do gênero musical - tanto no cinema, quanto no teatro. Mantém até hoje a façanha de ser o único artista a ganhar, em um mesmo ano, os prêmios Emmy (máximo da TV americana), Tony (máximo do teatro americano) e Oscar.

Joe Gideon (Roy Scheider em atuação perfeita - participou de grandes filmes da época, como Tubarão) é o protagonista, representante de Fosse na tela. A história é construída sobre uma conversa de Gideon com uma misteriosa mulher vestida de branco (Jessica Lange - muito bem) - supostamente, a morte - passando a limpo a vida e escolhas dele. É uma metáfora da importância do filme para o diretor Bob Fosse: um veículo de análise.

Em tela, a visão que Fosse passa da sua vida (ou a vida de Gideon, como quiserem) é altamente negativa. O personagem é egocêntrico, mulherengo, flerta constantemente com a morte e não dá a devida atenção a sua família. O filme/musical só não deixa de ter um tom "alegre" porque Fosse conduz o filme com um humor cínico, fazendo comédia da tragédia de seu protagonista (por extensão, dele mesmo).

All That Jazz ainda é o documento definitivo do jeito Fosse de produzir algo. Tanto o perfil de trabalho traçado no filme, quanto o resultado final da obra. Fosse, como mostra o longa, era um workaholic perfeccionista ao extremo (a montagem inicial, ao som de George Benson, é espetacular). Todos os números musicais da produção são cirurgicamente conduzidos e pensados por ele. Na sala de pós-produção, era capaz de atrasar o lançamento de um filme por meses só para alcançar o impacto ideal em uma única cena. Não à toa, a produção soa ter cada segundo controlado perfeitamente por Fosse: construção e impacto no público.

Fosse dirige os momentos finais de Joe Gideon como se fosse um grande show. É tudo muito cínico, fruto da cabeça de um homem intenso e cheio de falhas na vida. O número final parece interminável, o que não chega a ser ruim, mas pode ser lido como algo metafórico. A jornada de Bob Fosse pela Terra esteve cheia de coisas ruins (como o mesmo não esconde), no entanto rendeu-lhe sua definitiva obra-prima no cinema.


All That Jazz concorreu a 9 Oscars em 1980, vencendo quatro deles.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Clássicos - Ruas de Fogo (Streets of fire)

O cinema dos anos 80 deixou de legado, entre outras coisas, uma infinidade de filmes B. Alguns deles, após várias reprises na televisão, chegam aos dias atuais com o status de cult. Uma das produções que estão nesse grupo é Ruas de Fogo (Streets of fire - 1984).

Como o próprio filme diz, a história se passa em "um outro tempo e outro lugar". E a construção desse cenário é muito interessante. Produto de um ótimo trabalho de direção de arte, a cidade aparenta situar-se em um período pré-apocalíptico, dominado pela violência. No entanto, o linguajar dos personagens, as roupas, veículos e outros elementos nos remetem aos EUA dos anos 50. O resultado é um visual estranhamente plausível, realístico e convincente ao espectador.

Ellen Aim (Diane Lane, no começo da carreira) é uma rock star raptada por um grupo de motoqueiros delinquentes chamados Bombers. Aliás, a cena do sequëstro no meio de um show transpira energia e é o ponto alto de Diane Lane no longa. Informado disso, Tom Cody (Michael Paré, convincente no papel do garoto-problema), um ex-namorado da cantora, volta para a cidade vai ao seu resgate. Entrará em choque com Raven (William Dafoe, sempre eficiente como vilão), líder dos Bombers.

O trabalho do diretor Walter Hill é o grande diferencial desse filme. Demonstrando grande habilidade, ele orquestra as cenas de ação com uma segurança extrema e mantendo um clima vibrante por grande parte da projeção. No final das contas, Hill entrega ao público 93 minutos pulsantes e cheios de adrenalina, ajudados por uma trilha sonora com sucessos da época.

Entre as atuações, merecem destaque também Rick Moranis e Amy Madigan. Os dois são o alívio cômico da trama. Moranis aparece um pouco mais sério do que o habitual (o que não quer dizer muito) como o empresário e namorado de Ellen Aim. Já Madigan incorpora perfeitamente a ex-soldado que ajuda Tom no resgate da cantora. Vale prestar atenção na fotografia do filme, que constantemente lembra um quadro de história em quadrinhos - trabalho sensacional de Andrew Laszlo.

Ruas de Fogo é uma diversão certeira e energética, com a duração ideal e a dose necessária de adrenalina. Uma autêntica e frenética fábula de rock and roll.

Lançado em DVD pela distribuidora Universal, em formato de tela widescreen e aúdio em português e inglês (ambos Dolby 2.0). Sem extras. Revisado dia 29/07/2007.