Para aqueles que conhecem o cinema dos anos 70, William Friedkin é um nome bem importante. Ele ganhou o Oscar pela direção do clássico policial Operação França. Além disso, em 1973, dirigiu um dos maiores clássicos do cinema americano: O Exorcista. Enfim, é um grande diretor.
Pena que, depois da década citada, ele quase desapareceu. Fez um filme digno de atenção nos anos 80 - Viver e morrer em Los Angeles - e, de resto, muito pouco.
Por isso, Possuídos - tradução medíocre para o título original (Bug) - pode ser encarado como o retorno do cultuado diretor. Friedkin tem uma direção enérgica e conduz seus atores a grandes atuações. Não à toa, o filme causou frisson no último Festival de Cannes, levando o prêmio principal da Quinzena dos Realizadores.
Friedkin traz consigo ainda um gênero que parecia quase extinto: o suspense/terror psicológico (O Exorcista é um dos maiores exemplares deste gênero). Muito comum durante uma época contestadora da sociedade americana, que também representou o auge do diretor, o terror psicológico declinou com o crescimento do caráter comercial do cinema: menores censuras prévias, estilo convencional e a diminuição brutal do papel social das produções.
O filme é adaptação de uma peça teatral off-Broadway. Nele somos apresentados a Agnes White (Ashley Judd, em uma das melhores atuações da carreira), uma mulher solitária atormentada com a possibilidade do retorno do ex-marido, recém-libertado da prisão. Ela começa uma relação com Peter Evans (Michael Shannon, familiarizado com o papel que já tinha interpretado no teatro), um veterano de guerra com passado obscuro.
A primeira hora é toda baseada em diálogo. Friedkin utiliza tal tempo para criar um clima altamente tenso e claustrofóbico, intenso e totalmente eficiente. Aqui, fica clara a habilidade que o diretor possui para conduzir o gênero. Quando chegamos ao terceiro ato, a efetiva "ação", já estamos imersos a uma atmosfera nervosa, insana e auto-destrutiva.
Impressionante o dinamismo que o realizador imprime a obra, apesar de ela se passar em 95% do tempo no mesmo cenário - dentro de um quarto de hotel. A forma de filmar lembra (em talento e eficiência) o terceiro ato de O Exorcista, que é também quase todo em um cômodo. Certeira também é a mixagem de som, que beira a perfeição. O filme é tão singular positivamente que até certos deslizes no diálogo ("rei" e "rainha", no final do filme) são perdoáveis. Saber que William Friedkin voltou, tão bem quanto antes, é superior a qualquer erro.
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