terça-feira, 7 de agosto de 2007

Clássicos - O show deve continuar (All That Jazz)

Os musicais tiveram seu grande momento no cinema americano dos anos 40 e 50. No período, as produções do gênero lideravam as bilheterias. O mundo mudou, o público mudou e o cinema seguiu essa mudança. Marcadamente a partir da década de 70, os musicais tornaram-se raridades. Produzido em 1979, All That Jazz é um dos longas-metragens do gênero que merecem honroso destaque.

O filme é uma semi auto-biografia do escritor/diretor/coreógrafo Bob Fosse. Ele figura entre os gênios do gênero musical - tanto no cinema, quanto no teatro. Mantém até hoje a façanha de ser o único artista a ganhar, em um mesmo ano, os prêmios Emmy (máximo da TV americana), Tony (máximo do teatro americano) e Oscar.

Joe Gideon (Roy Scheider em atuação perfeita - participou de grandes filmes da época, como Tubarão) é o protagonista, representante de Fosse na tela. A história é construída sobre uma conversa de Gideon com uma misteriosa mulher vestida de branco (Jessica Lange - muito bem) - supostamente, a morte - passando a limpo a vida e escolhas dele. É uma metáfora da importância do filme para o diretor Bob Fosse: um veículo de análise.

Em tela, a visão que Fosse passa da sua vida (ou a vida de Gideon, como quiserem) é altamente negativa. O personagem é egocêntrico, mulherengo, flerta constantemente com a morte e não dá a devida atenção a sua família. O filme/musical só não deixa de ter um tom "alegre" porque Fosse conduz o filme com um humor cínico, fazendo comédia da tragédia de seu protagonista (por extensão, dele mesmo).

All That Jazz ainda é o documento definitivo do jeito Fosse de produzir algo. Tanto o perfil de trabalho traçado no filme, quanto o resultado final da obra. Fosse, como mostra o longa, era um workaholic perfeccionista ao extremo (a montagem inicial, ao som de George Benson, é espetacular). Todos os números musicais da produção são cirurgicamente conduzidos e pensados por ele. Na sala de pós-produção, era capaz de atrasar o lançamento de um filme por meses só para alcançar o impacto ideal em uma única cena. Não à toa, a produção soa ter cada segundo controlado perfeitamente por Fosse: construção e impacto no público.

Fosse dirige os momentos finais de Joe Gideon como se fosse um grande show. É tudo muito cínico, fruto da cabeça de um homem intenso e cheio de falhas na vida. O número final parece interminável, o que não chega a ser ruim, mas pode ser lido como algo metafórico. A jornada de Bob Fosse pela Terra esteve cheia de coisas ruins (como o mesmo não esconde), no entanto rendeu-lhe sua definitiva obra-prima no cinema.


All That Jazz concorreu a 9 Oscars em 1980, vencendo quatro deles.

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