sábado, 5 de abril de 2008

Rolling Stones - Shine a Light

Não tinha como dar errado. Ainda assim, é impressionante.

Todos sabem que Martin Scorsese é um dos maiores diretores de cinema em atividade. O que poucos sabem é que ele também é um fanático por música. Sua filmografia está repleta de projetos musicais (excelentes, por sinal). Shine a Light é o seu novo longa nesta vertente, homenageando a lendária banda Rolling Stones.

Diferente do que vem sendo divulgado, Shine a Light não é um documentário. Trata-se da filmagem dos dois shows realizados pela banda no Beacon Theater, em Nova York. A intenção de Scorsese não é destrinchar a carreira do conjunto, mas apresentá-los em seu "habitat natural": o palco.

Os primeiros dez minutos de projeção são uma pertinente visão dos bastidores do espetáculo. Tanto para os Stones, quanto para Scorsese. E o diretor manda-nos um recado claro de quem está no comando: os roqueiros. Isso acaba refletindo-se na postura sempre preocupada do realizador, crescente com a proximidade do show, e acaba por render momentos particularmente engraçados.

Quando o quarteto entra no palco, Scorsese desaparece. Não só fisicamente. A postura do diretor após o início da apresentação é sentar-se e aproveitar, como qualquer outro espectador. E, acreditem, isto está longe de ser um pecado. Mais importante do que movimentos virtuosos de câmera é a simples intenção do realizador: captar toda a força que a banda (continua) emana(ndo) em palco, apesar da inegável idade.

Neste sentido, Scorsese alcança um brilhante resultado. O posicionamento das câmeras, o trabalho de edição e a fotografia primorosa de Robert Richardson contribuem para que Shine a Light torne-se um filme que transpira a energia e vibração captada das presenças de Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts.


Por toda a projeção, Scorsese também faz questão de mostrar as faces do quatro integrantes do Rolling Stones - castigadas, denotando o abuso de "substâncias ilegais" durante a trajetória de sucesso - e cria um interessante contra-ponto com a energia impressionante que os mesmos impõe ao show. Sem dúvida, esta "contradição" é um dos pontos altos da pouca influência do diretor.

A cada duas ou três músicas, são inseridos pequenos trechos de antigas e recentes entrevistas com os artistas. Econômicas, servem para dar uma pequena idéia do caminho percorrido pelo conjunto até chegar ao momento atual. Relações de amizade, rituais pré-apresentações, início de carreira - tudo recebe um espaço nestas inserções. Talvez, aqui resida o único erro de Martin Scorsese: as entrevistas deixam um gosto de "quero mais" no público, poderiam ser mais constantes.

O show, matéria-prima de Shine a Light, não deixa a desejar. Grandes sucessos do conjunto estão presentes, bem como algumas ótimas músicas de outros intérpretes. O ponto baixo são as participações especiais, nem sempre pertinentes e que pouco agregam ao desempenho dos "protagonistas". Jack White nada acrescenta em "Loving Cup". Cristina Aguilera está irregular com Jagger em "Live with me". Seguro e espetacular mesmo, só Buddy Guy e seu vozeirão em "Champagne & Reefer".

Shine a Light é, sem dúvida, menos ambicioso do que outros projetos "musicais" de Martin Scorsese. Por exemplo, os excepcionais The Last Waltz (O Último Concerto de Rock, 1978), No Direction Home (2005) e a série de documentários The Blues (em parceria com outros diretores). No entanto, não é uma homenagem/celebração de menor calibre. É impressionante, como os já citados, ao seu próprio modo.

domingo, 2 de março de 2008

Série Oscar - Senhores do Crime

Os diferenciais são o diretor David Cronenberg e, principalmente, o ator Viggo Mortensen.

Senhores do Crime (Eastern Promises) é mais um exemplo de material aparentemente comum elevado a outro nível por causa da competência dos profissionais envolvidos em sua produção.

Anna, parteira de um hospital londrino, testemunha a morte de uma jovem durante um parto. Ela resolve procurar a família da garota para dar a notícia do falecimento e buscar por parentes do bebê recém-nascido. Esta investigação acabará por colocar Anna em contato com a perigosa máfia russa e o submundo de Londres.

O roteiro de Steven Knight não explora todas as possibilidades que sua promissora premissa oferece. Knight resolve apostar nas personagens e a relação entre elas, em detrimento da trama.

Um dos fatores que definem o sucesso do longa é a direção do experiente David Cronenberg. Senhores do Crime é repleto de violência e o realizador sabe lidar como poucos com tal característica. A falta de pudor de Cronenberg casa perfeitamente com o filme, sempre conseguindo consolidá-lo como a experiência desagradável que pretende ser. O diretor ainda canaliza muito bem o melhor aspecto oferecido pelo roteiro: o retrato envolvente da máfia russa.

Interpretando a parteira Anna, Naomi Watts tem uma atuação eficiente, nada além disso. A impressão que fica é que o papel não exige muito esforço da atriz. Como Semyon, patriarca mafioso, Armin Mueller Stahl tem como principal trunfo conseguir fazer convincente sua transformação durante o longa. Enquanto isso, Vincent Cassel não parece ser desafiado pelo papel de Kirill, o filho inseguro e antipático de Semyon.


A incorporação do motorista Nikolai pelo ator Viggo Mortensen merece destaque absoluto. Enigmático, frio e visceral, Mortensen transforma seu personagem no principal atrativo da projeção. O Nikolai retratado pelo ator é um ponto de interrogação, o que torna plausível as reviravoltas propostas pelo roteiro para o personagem. A única certeza que temos sobre o motorista é de seu natureza violenta. Uma atuação explêndida.

O trabalho de fotografia concebido por Peter Suschitzky é coerente com o tom da trama, potencializando o clima obscuro e retratando com precisão o submundo de Londres. Enquanto isso, a montagem de Ronald Saunders é precisa e fria, tendo seu ponto alto na realista luta de Mortensen em uma sauna, cena polêmica pela nudez do protagonista.

Senhores do Crime supera um roteiro com tratamento convencional através do trabalho competente da maior parte dos seus envolvidos. Especialmente sem Cronenberg e Mortensen, este filme estaria condenado a passar sem brilho pelos cinemas. No entanto, como Conduta de Risco, o longa não deverá agradar o público médio - seja por sua obscuridade, seja pela postura alheia que desenvolve com o espectador.

Indicado apenas ao Oscar de melhor ator (Viggo Mortensen), Senhores do Crime pode ser considerado parcialmente injustiçado pela Academia. A direção de Cronenberg oferece muito mais recursos e talento do que a de Tony Gilroy, por exemplo (indicada por Conduta de Risco). A excelente trilha sonora e edição também poderiam ter sido lembradas pelos votantes.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Série Oscar - Sweeney Todd

Burton entrega mais um filme bem particular, embora não isento de erros.

Dono de uma filmografia que privilegia obras obscuras e fantasiosas, Tim Burton é um dos realizadores mais interessantes (e diferentes) em atividade. Seu mais recente trabalho é Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street) - sexto longa do diretor em parceria com o ator Johnny Depp.

O filme apresenta o drama do barbeiro Benjamin Barker. Ele foi preso, sob falsas acusações, pelo juiz Turpin e ficou 15 anos afastado da família. Libertado, volta para Londres em busca de vingança contra Turpin - que "assumiu" a família de Barker. Agora sob o nome de Sweeney Todd, ele volta a trabalhar como barbeiro no seu antigo salão, dividindo o espaço com a loja de tortas comandada pela Sra. Lovett.

O roteiro de John Logan é adaptado da montagem do espetáculo para a Broadway. Ou seja, Sweeney Todd representa a incursão de Burton pelo gênero musical. Uma combinação improvável, uma vez que o realizador gosta de temas sombrios e os musicais são ligados ao otimismo, com argumentos cômicos e/ou românticos.

Nos papéis principais, Johnny Depp (Todd) e Helena Bonham Carter (Lovett) estão sensacionais. Depp consegue refletir a figura angustiada e vaga de Sweeney com perfeição. Já Carter suaviza a postura vilanesca da Sra. Lovett criando uma personagem digna de pena, ao passo que idealiza uma relação mais afetiva com Todd. Os dois ainda surpreendem, revelando-se bons cantores.

O veterano Alan Rickman exibe sua competência característica como o juiz Turpin, enquanto o comediante Sasha Baron Cohen tem uma mínima, mas notável aparição como um barbeiro concorrente de Todd. Mas nem todos estão bem. O casal jovem da trama - os atores Jamie Campbell Bower e Jayne Wisener -, além de totalmente dispensável ao filme, é composto através de interpretações totalmente inexpressivas e irritantes.


Se há uma falha na produção, ela reside exatamente em sua concepção musical. Muitas músicas são repetitivas e de qualidade questionável. O problema cresce por Sweeney Todd ter praticamente todo o seu primeiro ato cantado, transformando o início do filme em um exercício de paciência até mesmo para fãs do gênero.

Com o tempo, o filme melhora. Burton equaliza melhor o conteúdo musical disponível e alcança um "equilíbrio" entre músicas e diálogos. Sweeney Todd ganha fluidez e torna-se, gradativamente, uma experiência mais interessante. A história ganha contornos mais incisivos e o diretor começa a imprimir seu estilo, garantindo bons momentos. Neste ritmo, a produção chega em um nível ideal para que o público possa acompanhar o ótimo desfecho da trama.

O grande destaque de Sweeney Todd fica por conta da primorosa direção de arte concebida por Dante Ferretti - premiada justamente pela Academia. Mesmo "recheado" de efeitos visuais, é possível identificarmos quão brilhante é a concepção visual do filme. O veterano Ferretti entra em perfeita sintonia com os ideais do "Universo Burton", construindo cenários que materializam uma Londres suja e corrupta. Um trabalho brilhante.

Sweeney Todd representa mais uma experiência bem sucedida do diretor Tim Burton, ajudado por ótimos trabalhos de elenco e artes visuais. No entanto, o filme sente a falta de uma trilha musical mais qualificada e melhor equilibrada. Em tal panorama, o diretor merece elogios: consegue que um musical que falha exatamente em sua parte "cantada" continue sendo um ótimo longa.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Apostas - Oscar 2008

Hora do vamos ver!

Chegou a hora das apostas finais, menos de uma hora antes da premiação ser iniciada:

- Melhor Filme

Vencerá: Onde os fracos não têm vez
Pode pintar: Sangue Negro
Torço para: Sangue Negro

O filmes dos irmãos Coen parece ter cativado os críticos. Muito forte desde o início da Award Season, difícil imaginar que o filme perderá força agora. Ganhou a corrida nos sindicatos. Estou na torcida por Sangue Negro, mas já estou conformado. A esperança é a última que morre e o filme de Paul Thomas Anderson é também muito forte.

- Melhor Diretor

Vencerá: Joel e Ethan Coen (Onde os fracos não têm vez)
Pode pintar: Paul Thomas Anderson (Sangue Negro)
Torço para: Paul Thomas Anderson (Sangue Negro)

Segue a lógica do prêmio de filme. A Academia parece-me mais interessada em dar a glória para os irmãos Coen do que pulverizar a premiação. Paul Thomas Anderson é dono do melhor trabalho na área.

- Melhor Ator

Vencerá: Daniel Day Lewis (Sangue Negro)
Pode pintar: Só se quiserem dar duas estatuetas para Lewis
Torço para: Daniel Day Lewis (Sangue Negro)

Todas as atuações indicadas são excelentes, mas Lewis está em outro patamar. É uma possessão. Só perde se tiver uma mega-marmelada.

- Melhor Atriz

Vencerá: Julie Christie (Longe Dela)
Pode pintar: Marion Cotillard (Piaf)
Torço para: Ellen Page (Juno)

Não assisti as duas atuações favoritas ao prêmio. Se dependesse de mim, ganharia a jovem Ellen Page pela sensacional incorporação de Juno. No entanto, as outras duas atuações estão mais bem cotadas. A Academia vai pensar: "Page é jovem, vai concorrer outras vezes".

- Melhor Atriz Coadjuvante

Vencerá: Tilda Swinton (Conduta de risco)
Pode pintar: Amy Ryan (Medo da verdade) ou Ruby Dee (O Gangster)
Torço para: Ninguém em especial.

Um dos prêmios em aberto da noite. Swinton leva como prêmio de consolação para o filme de Tony Gilroy. No entanto, Ryan foi quem teve melhor desempenho nos prêmios de associações de críticos e a veterana Ruby Dee venceu o Sindicato dos Atores. Tá aberto!

- Melhor Ator Coadjuvante

Vencerá: Javier Bardem (Onde os fracos não têm vez)
Pode pintar: Hal Holbrook (Na Natureza Selvagem)
Torço para: Tom Wilkinson (Conduta de Risco)

Bardem é prêmio praticamente certo aqui. Venceu todos os prêmios possíveis, como Daniel Day Lewis. Mas a sombra da premiação pelo conjunto da obra ronda a porta. Holbrook é veterano e está em uma atuação "derrete coração" em Na Natureza Selvagem. Confesso que foi Wilkinson, como o advogado perturbado de Conduta de risco, quem mais ganhou minha simpatia.

- Melhor Longa de Animação

Vencerá: Ratatouille
Pode pintar: Persepolis
Torço para: Ratatouille

A concorrência parecia fácil, mas engrossou. Nos últimos dias, o francês Persepolis ganhou muita força, além de ser um filme bem mais politizado do que a produção do ratinho cozinheiro. No entanto, minha aposta continua em Ratatouille. Brad Bird e a Pixar tem muito prestígio na Academia e o filme é falado em inglês.

- Melhor Roteiro Adaptado

Vencerá: Sangue Negro
Pode pintar: Está em aberto. Tirando Longe Dela, todos podem vencer.
Torço para: Sangue Negro

Prêmio totalmente em aberto. A Academia vai encher os irmãos Coen de prêmios, mas lembrarão de premiar Paul Thomas Anderson pelo roteiro. Não descarto os outros três candidatos, pois pode ser a estatueta de consolação de Desejo e Reparação ou O Escafandro e a Borboleta.

- Melhor Roteiro Original

Vencerá: Juno
Pode pintar: Conduta de risco
Torço para: Juno

Juno define a palavra originalidade e está fortemente badalado. Este é seu provável único prêmio da noite. Venceu o Sindicato dos Roteiristas. Tem tudo para vencer. Mas, sempre lembrando, que Conduta de risco agradou muito a Academia e também pode ser o prêmio de consolação do filme.

- Melhor Fotografia

Vencerá: Robert Elswit (Sangue Negro)
Pode pintar: Roger Deakins e suas duas indicações (O Assassinato de Jesse James... e Onde os fracos não têm vez)
Torço para: Robert Elswit (Sangue Negro)

O trabalho de fotografia de Elswit em Sangue Negro é perfeito, valorizando a escuridão quando aborda o protagonista. Os dois trabalhos de Roger Deakins são muito bons, mas tendem a dividir votos entre si.

- Melhor Montagem

Vencerá: Onde os fracos não têm vez
Pode pintar: Sangue Negro
Torço para: Sangue Negro

Onde os fracos não têm vez possui três protagonistas e consegue ser perfeitamente orquestrado. Merece o prêmio. Uma vez que este é um termômetro para a premiação principal, isso diz muito. Sangue Negro pode pintar porque, além de ser o único indicado também a melhor filme, é um filme longo e montado de forma envolvente. O Ultimato Bourne também é muito bom.

- Melhor Direção de Arte

Vencerá: Dante Ferretti (Sweeney Todd)
Pode pintar: Jack Fisk (Sangue Negro)
Torço para: Dante Ferretti (Sweeney Todd)

A recriação do Londres vitoriana de Dante Ferretti é espetacular e consegue sobresair-se apesar da artimanhas digitais envolvidas no filme. O trabalho de Sangue Negro, recriando a Los Angeles do começo do século, é muito boa também. No entanto, o trabalho de Ferretti é mais evidente e deverá ser mais lembrado.

- Melhor Figurino

Vencerá: Desejo e Reparação
Pode pintar: Elizabeth 2
Torço para: Ninguém em especial.

O trabalho de Desejo e Reparação está ditando moda e o vestido verde trajado por Keira Knightely no filme está causando frisson. Mas, vale lembrar, a Academia ama trabalhos estilizados e pomposos, típicos de época.

- Melhor Maquiagem

Vencerá: Piaf
Pode pintar: Norbit
Torço para: Ninguém em especial.

O trabalho de maquiagem em Piaf consegue o feito de fazer a bela Marion Cotillard encarne a cantora Edith Piaf aos 48 anos, mas aparentando 80. No entanto, o trabalho de Norbit é mais chamativo. Como os maquiadores do Eddie Murphy sofrem...

- Melhor Documentário

Vencerá: Taxi to the Dark side
Pode pintar: No end in sight
Torço para: SOS Saúde

Não assisti a nenhum dos indicados. Baseio-me no pouco que ouvi falar sobre eles.

- Melhor Trilha Sonora

Vencerá: Desejo e Reparação
Pode pintar: Ratatouille ou O caçador de pipas
Torço para: Ninguém em especial

A trilha de Dario Marianelli para Desejo e Reparação é muito bonita e bem concebida. Além disso, este pode ser um dos prêmios de consolação para o filme. No entanto, a Academia pode estar ávida para dar prêmios a super badalada animação do ratinho. Coloquei Caçador de pipas entre os possíveis vencedores porque ouvi falar muito bem do trabalho e é sua única indicação.

- Melhor Canção

Vencerá: Falling Slowly (Once)
Pode pintar: That's how you know (Encantada)
Torço para: That's how you know (Encantada)

As três indicações para Encantada devem acabar se anulando (como ocorreu ano passado com Dreamgirls) e abrir espaço para a super elogiada música do filme irlandês Once. Gostei muito do musical da Disney e gostaria de ver vencedora esta encantadora That's how you know. A música de O Som do coração tem pouquíssimas chances.

- Melhor Edição de Som

Vencerá: O Ultimato Bourne
Pode pintar: Transformers
Torço para: Dividido entre os dois citados antes.

Estes prêmios técnicos sempre me derrubam! Nos prêmios de som, aposte nos musicais e/ou no mais barulhento. Eis os dois que melhor encaixam nesta regra. Não aposto em Trasformers porque duvido que a Academia dê três prêmios para ele. Como já vai vencer mixagem e efeitos visuais...

- Melhor Mixagem de Som

Vencerá: Transformers
Pode pintar: O Ultimato Bourne
Torço para: Transformers

Inversão das apostas anteriores. Transformers merece nas categorias técnicas.

- Melhor Efeitos Visuais

Vencerá: Transformers
Pode pintar: Ninguém põe água nesse chope.
Torço para: Transformers

Barbada. Transformers é visualmente pomposo e representa mais um passo evolutivo na produção de efeitos visuais. Os outros dois candidatos são figurantes. Se perder para um deles, será outra mega-marmelada.

OBS:
- Nunca aposto nas categorias de Documentário em curta-metragem, Curta-metragem e Curta de animação. Geralmente, estes candidatos sequer distribuidos no Brasil são.

Série Oscar - Sangue Negro

Um espetáculo em todos os sentidos.

Apesar de sequer 40 anos ter, o diretor Paul Thomas Anderson é reconhecido como um dos maiores talentos da direção cinematográfica ianque. Responsável por filmes como Boogie Nights e Magnólia, o realizador agora apresenta esta espetacular obra chamada Sangue Negro (There Will Be Blood).

Livre adaptação do livro Oil! de Upton Sinclair, acompanhamos a trajetória do prospector de petróleo Daniel Plainview, marcada pela ganância. Já estabelecido como grande empresário, ele ruma para Little Boston - vilarejo que possui reservas de petróleo - entrando em rixa com Eli Sunday, o pastor local.

Há muito tempo, o cinema americano não produzia um filme tão poderosa e obscura. Trata-se de um épico indefinível, justamente comparado com épicos do quilate de Cidadão Kane. É uma obra-prima, produção que já nasce clássica.

O diretor Paul Thomas Anderson reafirma seu inconstestável talento com este filme. Incrível a incapacidade do realizador fazer um único plano ou cena comum. Toda a produção é filmada com a grandeza e estilo que Sangue Negro merece. Se este não representar o auge de Anderson como diretor, ele tem tudo para tornar-se lendário (no patamar de Wells, Hitchcock, etc).

Daniel Day Lewis e dono da melhor atuação da década como Plainview. É absurdo, assustador, intrigante e brilhante. Um caso genuíno de possessão. Pode ser ainda mais impressionante saber que Paul Dano (o garoto "mudo" de Pequena Miss Sunshine, absurdamente ignorado pela Academia novamente) acompanha o ritmo de Lewis, incorporando o cínico pastor Eli Sunday. Ainda há o garoto Dillon Freasier, novato, porém competente como HW Plainview.




Adaptado pelo próprio Paul Thomas Anderson, o roteiro é preciso, frio e certeiro. Os 158 minutos podem parecer longos, mas são necessários. Além disso, não cansam. É um tempo excelentemente gasto, uma vez que estamos vendo uma parte valiosa da história do cinema sendo projetada.

Até mesmo as decisões mais polêmicas de Anderson dão certo. Os quinze primeiros minutos da produção, sem diálogos, servem para evidenciar nuances importantes do seu protagonista (solitário, anti-social). Além disso, ajuda a afirmar o tom visceral e poderoso da trama, ampliado pela trilha sonora perturbadora e genial de Jonny Greenwood - os sons da cabeça de Plainview.

Os trabalhos técnicos são todos bem competentes. A direção de arte de David Crank recria fabulosamente a Los Angeles do início do século. Edição e mixagem de som são igualmente bem concebidos. A fotografia de Robert Elswit é um trabalho brilhante, forte candidato a vencer o prêmio da Academia. Tudo parece conspirar para o brilhantismo de Sangue Negro.

Dono de oito indicações, o filme deverá ser preterido em relação ao mais badalado Onde os fracos não têm vez. Certeza de premiação para Day Lewis como ator. As outras sete estatuetas são incertezas, que podem até dar em vitória (estou torcendo para isso): filme, diretor, roteiro adaptado, direção de arte, fotografia, edição/montagem e edição de som.

Série Oscar - Onde os fracos não têm vez

Mais um trabalho excelente dos Irmãos Coen. Provável "papa-Oscar" do ano.

Os irmãos Joel e Ethan Coen são ótimos realizadores, possuindo em seus currículos filmes de alta qualidade, como Fargo e O Grande Lebowski. Agora, com Onde os fracos não têm vez (No Country for old men), nunca estiveram tão próximos de um maior reconhecimento da Academia.

Llewelyn Moss é um caçador que encontra uma valise cheia de dinheiro no deserto, em um cenário onde parece ter acontecido uma negociação de traficantes mal sucedida. Para recuperar a quantia, é enviado um assassino psicótico e impiedoso. Começa uma perseguição entre os dois, com o xerife local sempre no encalço de ambos.

Aqui, os irmãos Coen constroem um western contemporâneo que, na verdade, é uma metáfora do mundo onde vivemos. Em sua essência violenta, simbolizada pelo assassino Anton Chigurh, guarda-se um paralelo com a violência do nosso dia-a-dia. Genial a forma como os Coens utilizam um gênero antigo para simbolizar uma situação atual.

Aliás, a chave de Onde os fracos não têm vez é a metáfora. Tudo e todos parecem possuir um significado obscurecido. Isto acaba por tornar o filme ainda mais envolvente e intrigante. O longa serve para reforçar o talento da dupla de realizadores enquanto não só diretores, mas como cineastas - uma vez que se desdobram em várias funções.

No posto de diretores, os irmãos Coen entregam uma obra formidavelmente orquestrada e conduzida. Veja como vários recursos de câmera são utilizados para comparar as personagens principais, como sombras e reflexos de luz. Além disso, uma das maiores virtudes da obra é como os realizadores conseguem dar o tempo necessário para que cada um dos indivíduos brilhe. Aí, méritos também para a edição de Roderick Jaynes (na verdade, os Coen sob pseudônimo).




O trabalho dos atores também é louvável. Impossível não destacar, um passo a frente, o espanhol Javier Bardem - que dá vida ao implacável Anton Chigurh em uma atuação assustadora e memorável. O veterano Tommy Lee Jones (xerife Ed) possui um papel muito difícil, mas alcança com louvores a incorporação da figura desiludida do homem-da-lei. Fechando a trinca, Josh Brolin encarna corretamente o pacato Llewelyn Moss.

Muitos estão chamando o filme de uma obra-prima. Na minha opinião, é um exagero. Apesar de muito bom, Onde os fracos não têm vez também possui alguns problemas. Um deles, mais para o público do que para a crítica, é o final súbito. Confesso que não me encomodei, mas sei que isto não agradou grande parte dos espectadores.

Outro problema é a contrução geral do terceiro ato. Com a questão principal já resolvida, o filme sofre uma freada brusca e perde fluência. Se os primeiros 100 minutos passam com primor, os últimos 20 minutos parecem outros 100. Em partes, esta sensação ocorre porque tal etapa da produção soa um pouco inchada. Vários acontecimentos e diálogos poderiam possuir um pouco mais de dinamismo ou terem sido cortados da versão final.

Com oito indicações ao Oscar (filme, diretor, ator coadjuvante, fotografia, roteiro adaptado, edição, som e edição de som), Onde os fracos não têm vez é o grande favorito aos principais prêmios da noite. Deve levar a glória de melhor filme. Se sair com menos do que três estatuetas, terá sido uma grande decepção. Ou a coroação justa de Sangue Negro sobre ele.

Série Oscar - Juno

Simplesmente apaixonante.

A Academia parece estar deixando uma vaga ao prêmio de melhor filme sempre guardada para a sensação independente da temporada. Este ano, o posto é preenchido por Juno - um filme singelo, original e simplesmente apaixonante.

Na produção, Juno MacGuff é uma adolescente de 16 anos que fica grávida após sua "primeira vez". Ela decide ter o filho e entregá-lo a um casal que não tem condições de engravidar, já que não se considera preparada para ser mãe.

Esta premissa simples transforma-se em um longa extremamente simpático e original. Isso porque, em nenhum momento, o filme se propõe a criticar a protagonista. Simplesmente acompanhamos sua trajetória e amadurecimento. Convenhamos: uma produção sobre gravidez na adolescência que não "esfrega" na nossa cara um enorme aviso de que isso é errado já merece reverências.

O roteiro da estreante (e ex-stripper) Diablo Cody é surpreendente por seu dinamismo e fino humor negro, quase sempre certeiro. E é um exercício interessantíssimo buscar as referência pop distribuídas deliciosamente ao longo da projeção. Em alguns momentos, o roteiro de Juno chega a lembrar do humor genial e paranóico de Woody Allen (como no episódio das unhas e do termo "sexualmente ativo").

A jovem atriz canadense Ellen Page aparece com uma caracterização absolutamente sensacional de Juno. Incrível como ela consegue captar o espiríto precoce da protagonista sem deixar de soar como uma adolescente - um feito notável. E aqui está mais um filme onde destaca-se o trabalho de elenco. Todos os coadjuvantes estão bem, desde Jennifer Garner (a mãe adotiva) até Olivia Thirlby (melhor amiga de Juno - grande atuação ignorada pela Academia).




Jason Reitman apresenta uma direção inventiva. O realizador mostra uma ótima qualidade: sabe realçar os bons momentos dos atores - uma cena belíssima é quando a protagonista anuncia ao "namorado" que está grávida, ganhando muita força com o pertinente close-up realizado por Reitman. Isso sem contar que o diretor consegue, em todo o momento, manter uma boa comunicação com a obra e o público.

A trilha sonora funciona quase como uma personagem da trama: um misto de jovialidade e meiguice que casa muito bem com o filme. As músicas perpassam o folk, as referências indie, alcançando alguns clássicos do rock.

O início do longa é um pouco artificial, incluindo um diálogo entre Juno e o atendente de um mercado (Rainn Wilson, de The Office) que passou-me a impressão de ser um desperdício com o talentoso comediante. Além disso, é de se estranhar que Juno dispare algumas referências pop que só uma pessoa de 20 ou mais anos poderia conhecer a fundo. Aí, fala mais alto Diablo Cody (com seus 25 anos) do que a adolescente Juno.

Concorrente em quatro categorias (filme, diretor, atriz e roteiro original), Juno tem boas chances de sair da premiação com apenas um prêmio: o de roteiro, para Diablo Cody. Nas outras, é azarão. Entre os diretores, acredito que Reitman deve comemorar a lembrança. Particularmente, ficaria muito feliz de ver Ellen Page vencedora do prêmio de atriz.

Série Oscar - Conduta de Risco

Otimamente escrito e atuado, mas exige paciência do espectador.

O ator George Clooney está se revelando mais interessante do que sua aparência de galã poderia supor. Por trás de sua fama, está um profissional constantemente engajado em filmes politizados. Ele dá seqüencia a esta rara postura com Conduta de Risco (Michael Clayton).

No filme, Michael Clayton é um advogado especializado em limpar as "sujeiras" que "figurões" fazem. Quando um dos advogados de sua empresa, responsável por um impasse bilionário, tem um surto e está prestes a colocar todo o caso que defende a perder, Clayton é envolvido em uma intricada trama.
O roteiro de Tony Gilroy é extremamente envolvente e bem escrito. Revela-se um excelente exercício do soterrado sub-gênero dos filmes-denúncia. Além disso, consegue o feito de tornar todas as sub-tramas envolvendo a vida pessoal do seu protagonista em situações relevantes. É um primor.

No papel título, Clooney alcança a melhor atuação de sua carreira. Seu Michael Clayton é sempre pensativo e dúbio. Aliás, todo o elenco está bem. Tilda Swinton mostra seu talento e habitual competência ao encarnar a vilã Karen Crowder. E o maior destaque fica para Tom Wilkinson, na pele do "surtado" advogado Arthur Edens. Ele é a consciência do filme e aparece em uma atuação extremamente verídica e carismática.

No entanto, é uma pena constatar que o "público médio" possivelmente não vá se conectar como deveria com a história. A ênfase nos diálogos e a fotografia dessaturada do filme causará bocejos nos espectadores menos pacientes e mais agitados. Mas, repito, quem souber prestar atenção e estiver realmente interessado na produção terá uma excelente experiência.

Tony Gilroy não é apenas o roteirista. Ele estréia na direção de um longa em Conduta de Risco. No entanto, seu triunfo no roteiro não é compartilhado na direção. Gilroy comanda a produção de forma extremamente convencional, sem ousar em nenhum momento. Sua direção é o popular "arroz com feijão": não dá vazão a erros, tampouco para brilhos.

O único momento em que o roteiro de Michael Clayton realmente decepciona é em seu final, quando larga mão de seu tom obscuro tão certeiro para dar lugar a uma visão mais otimista de seu protagonista. Talvez, nessa hora, tenha prevalescido o galã Clooney ao ousado ator.

Conduta de Risco concorre a sete Oscars: filme, diretor, ator, ator e atriz coadjuvantes, roteiro original e trilha sonora. Nas categorias principais, Onde os fracos não têm vez e Sangue Negro são francos-favoritos. Entre os roteiros originais, deve perder para Juno. Seria uma grande zebra se vencesse as trilhas sonoras mais estilizadas dos filmes de época. A grande chance está em atriz coadjuvante, onde a prestigiada Tilda Swinton vê uma disputa totalmente em aberto.

Série Oscar - O Gângster

Trata-se de um bom filme, mas nada muito além disso.

Sucesso de bilheteria, O Gângster (American Gangter) apareceu muito cotado na briga pelo Oscar deste ano. No entanto, o filme perdeu força e não conseguiu indicações nas principais categorias. Apesar de um bom filme, não dá para chamar a "esnobada" da Academia de injustiça.

Dirigido por Ridley Scott, a produção conta a história de ascenção do traficante Frank Lucas, na Nova York dos anos 70. Em paralelo, acompanha a implacável caça do detetive Richie Roberts ao criminoso.

Um dos maiores trunfos de O Gângster é possuir um bom ritmo e fluência, o que reduz os danos dos extensos 157 minutos de projeção. Mérito de Ridley Scott, aqui com sua melhor obra em anos.

O veterano realizador apresenta uma direção segura e sóbria. No entanto, sabendo que o diretor é Scott, esperamos algo mais. Ele não traz novos elementos e/ou inova em sua forma de filmar. O melhor que consegue são alguns momentos mais estilizados - como a cena em que Frank Lucas é encurralado em uma igreja.

O trabalho de elenco é fabuloso. Denzel Washington (Lucas) e Russell Crowe (Roberts) estão perfeitos como os antagonistas principais. Entre os coadjuvantes, vale destacar as atuações de Josh Brolin (como o detetive Trupo) e a veterana Ruby Dee (mãe de Frank Lucas). Dee aparece em pouquíssimos momentos, mas está soberba na melhor cena do filme: o confronto entre Lucas e a matriarca.


Contrapor os dois lados da história é uma decisão interessante. Mas o filme falha ao passo que a trajetória do traficante é muito mais interessante do que a do detetive. Mesmo as sub-tramas envolvendo o homem da lei - problemas familiares e a desconfiança dos colegas de trabalho - empalidecem perante a envolvente odisséia de Frank Lucas rumo ao poder. A disparidade de interesse acaba enfraquecendo a proposta, tornando a produção um pouco irregular.

Outro problema é o encontro de Lucas com Richards. Toda a projeção cria uma grande expectativa em torno do acontecimento. Quando ocorre, passadas duas horas de filme, o resultado não vai além do satisfatório. Filmado e roteirizado de forma comum, a reunião dos dois antagonistas representa uma súbita freada na história.

Indicado aos Oscar de melhor atriz coadjuvante (Ruby Dee) e direção de arte (ótimo trabalho de Arthur Max e Beth Rubino, recriando a década de 70), as chances de premiação parecem maiores para a efêmera participação da veterana atriz. Ela venceu o Globo de Ouro e pode ser contemplada com a política da Academia de premiar artistas pelo "conjunto da obra". Quando tem a chance de aparecer em O Gângster, Ruby Dee faz um bom trabalho.