quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Faltou coragem

A Warner cancelou o lançamento do filme Valente no Brasil.

O novo projeto da excelente atriz Jodie Foster e do renomado diretor Neil Jordan, Valente (inexpressivo título nacional para The Brave One), não será lançado nos cinemas brasileiros. Segundo a Warner, o filme - que iria estrear nas telonas daqui no feriado de Finados - será distribuído diretamente em DVD.

O provável motivo para o cancelamento da estréia de Valente no país é o fraco desempenho nas bilheterias norte-americanas. Apesar de ter liderado a arrecadação na sua semana de estréia (14 milhões de dólares), a produção caiu e acabou rendendo apenas 34 milhões.

Valente causou polêmica nos EUA ao ressuscitar a polêmica sobre a "justiça com as próprias mãos" e o armamento da população. Trata-se de um drama psicológico onde Foster interpreta uma radialista de Nova York que está noiva. Sua felicidade termina no dia em que sofre um ataque de meliantes. Ela fica gravemente ferida e o seu noivo morre. Então, passa a perseguir atormentadamente (e matar) homens que considera culpados do crime. Um detetive - interpretado por Terrence Howard - vai perseguir a "vigilante".

A crítica norte-americana ficou dividida. Alguns acharam um filme corajoso e dramático, focado na figura atormentada da protagonista. Outros, criticaram a mensagem perigosa da trama e apontaram semelhanças do longa com o clássico Desejo de Matar (1974), protagonizado pelo ator cult Charles Bronson. Eu sou um dos inúmeros fã do filme com Bronson, que, como o crítico Roger Ebert afirma, "causa um certo fascínio no público".

É uma pena que os brasileiros não tenham a oportunidade de ver o filme nas telonas, já que a atuação de Foster está cotada para o Oscar (ela já ganhou dois, por Acusados e O Silêncio dos Inocentes), assim como a de Howard para coadjuvante (já indicado como ator principal por Ritmo de um sonho). A única chance de conferir Valente no cinema é a exibição durante o Festival de Cinema de São Paulo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O ano em que meus pais saíram de férias

O ano em que meus pais saíram é um filme emotivo e simples, uma escolha correta para ser o representante nacional no Oscar de melhor filme estrangeiro.

Hoje, O ano em que meus pais saíram de férias já é muito mais do que o segundo filme dirigido por Cao Hamburger. A produção venceu (segundo jurados, de forma unânime) a seletiva organizada pelo Ministério da Cultura para se tornar o candidato oficial do Brasil ao Oscar de melhor filme em língua não-inglesa.

O filme conseguiu bater o favoritismo do "fenômeno" Tropa de Elite, a produção nacional mais comentada dos últimos anos. Os dois longas são extremamente diferentes entre si. Tropa um é o relato cruo da violência reinante no país. Já O ano... é uma história terna, porém firme, sobre um período de opressão latente.

A história do filme tem como pano de fundo o auge da ditadura militar e a Copa do Mundo de 1970. Mauro é um garoto de 12 anos apaixonado por futebol, mas que vê sua vida mudar quando seus pais, subitamente, saem de férias (na verdade, são perseguidos pelo regime opressor) e deixam-no aos cuidados de seu avô. A partir deste momento, ele faz amizade com o vizinho Shlomo, um idoso judeu.

O grande trunfo da produção é a sua semelhança com o jovem protagonista. Assim como uma criança de 12 anos, o filme é dominado por uma aura de sensibilidade, sutileza, ternura e sinceridade. Ainda é digno de nota as ótimas atuações (destaque para o garoto Michel Joelsas e os veteranos Germano Hauit e Paulo Autran - recém-falecido), o trabalho de fotografia realizado por Adriano Goldman e o amadurecimento de Cao Hamburger como diretor de cinema.

Muitos consideraram a escolha de O ano em que meus pais saíram de férias injusta (com Tropa de Elite). Independente disto, o filme é muito bom e merece maior atenção do público brasileiro. Trata-se de uma visão sutil, sensível e franca sobre um momento obscuro da história nacional.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Superbad - É hoje

Definitivamente, um novo clássico teen. A melhor comédia da temporada.

Nesta sexta-feira (19/10), estréia nos cinemas brasileiros o último grande blockbuster do verão norte-americano: Superbad - É Hoje!. A comédia teen com um roteiro aparentemente comum surpreendeu com excelente aceitação entre a crítica especializada. As bilheterias confirmaram o sucesso: só nos EUA, o filme arrecadou 120 milhões de dólares - seis vezes o valor gasto com a produção.

A trama é centrada nos amigos Seth e Evan, dois garotos não-populares que estão concluindo o high school. Eles acabam sendo convidados para a festa de formatura da garota mais popular do colégio. No entanto, para entrar nela, eles terão que "descolar" a bebida. O filme narra a busca deles pelo álcool e todas as suas amalucadas conseqüências.

Superbad é o filme com maior número de piadas em muito tempo. São quase ininterruptas e todas funcionam - das mais grosseiras até as mais sutis. E existe muita escatalogia aqui. Mas, como nas obras recentes de Judd Apatow (que produz este filme), essas grosserias são usadas em favor de um conjunto maior, extremamente afinado, hilário e inteligente. Existem situações e diálogos antológicos para o nível das teen comedies, tudo concebido com o cuidado de um filme que nasce predestinado ao rótulo de "clássico" de seu gênero.


O roteiro de Seth Rogen (o protagonista de Ligeiramente Grávidos) e seu amigo de infância, Evan Goldberg, é certeiro e guarda uma fina análise da amizade masculina e dos problemas de ser um adolescente nos EUA, mais evidente no fim da projeção. As atuações são ótimas, com destaque para Christopher Mintz-Plasse, intérprete de Fogell, mas que ficou mais conhecido por McLovin - um geek tão memorável quanto os clássicos dos filmes oitentistas de John Hughes. A direção de Greg Mottola reverencia a qualidade do roteiro.

A companhia de um filme tão memorável e carismático deixa o público "órfão" depois dos 116 minutos de projeção. Fica um gosto de quero mais. Até porque o terceiro ato, que (como já disse) analisa o drama de ser um "quase adulto"e os vínculos da amizade, funciona tão bem quanto a parte mais bem humorada da trama.
Superbad "nasce" no mesmo patamar de clássicos absolutos das comédias teen, como as obras de John Hughes nos anos 80 (Curtindo a vida adoidado) e o memorável O Clube dos Cafajestes (1978). Trata de mais do que ótimas piadas, é um retrato original do adolescente de nosso tempo e das dificuldades que isso acarreta. Docemente desbocado e absolutamente brilhante.

Resident Evil 3 - A extinção

Pouca coisa funciona. Mantém a tradição de filmes fracos da cinessérie.

O cinema comercial da atualidade já atestou que adaptar um jogo de vídeo-game para o cinema é uma tarefa ingrata, bastante desafiadora. Isso pode servir de alento para os produtores de Resident Evil 3 - A extinção, mais um fracasso na tentativa de "diálogo" entre os consoles e a tela grande.

O filme segue um comboio de sobreviventes ao vírus experimental produzido pela Corporação Umbrella. Eles querem chegar ao Alasca, onde acreditam que estarão protegidos. Enquanto isso, a heroína Alice (Milla Jovovich) é perseguida por cientistas.

Resident Evil 3 - A extinção fracassa porque soa como um "vídeo-game exibido no cinema", e não necessarimente como um filme. Lembrando um jogo de console, o roteiro é tratado como um coadjuvante das seqüências de ação. O roteirista Paul W. S. Anderson "ajuda" com sua mediocridade costumeira na qualidade do texto final.

Ao que parece, nenhum dos produtores lembrou de um detalhe óbvio: nos games, a interação do consumidor na ação pode compensar a falta de um argumento consistente. Nas "telonas", não. Por isso, o terceiro filme Resident Evil resulta fraco e nunca convence enquanto cinema.

O diretor Russell Mulcahy (que dirigiu o ótimo cult oitentista Highlander) pouco faz diante do limitado material. Nas cenas de ação, não consegue sobresair-se com uma filmagem totalmente previsível. O uso exagerado de câmeras lentas por parte de Mulcahy é o único motivo para que A Extinção dure 97 minutos. E, como já virou um clichê, a edição é frenética.

Para não dizer que tudo deu errado, podemos ressaltar o trabalho de direção de arte: uma ambientação interessante e satisfatória de Marco Niro. Além disso, a atriz/modelo Milla Jovovich continua convencendo como heroína de filmes de ação. Ainda assim, muito pouco para um filme que custou 50 milhões de dólares e já deixa o caminho para outra seqüência.

Ligeiramente Grávidos (Knocked up)

Ligeiramente Grávidos é outra grande prova do talento de Judd Apatow

Em 2005, Judd Apatow dirigiu e roteirizou um filme de grande sucesso chamado O Virgem de 40 anos. A produção utilizava-se do politicamente incorreto de maneira inteligente e as sempre presentes escatalogias eram parte integrante de um longa afinado e hilário. Por isso, causou tanto burburinho em um mercado cada vez mais convencional.

Dois anos depois, Apatow chega denovo aos cinemas com esse Ligeiramente Grávidos. Felizmente, o diretor conseguiu alcançar as altas expectativas de público e crítica. Esse segundo filme do realizador é tão bom ou melhor do que seu debut, mais uma prova de seu talento singular no ramo da comédia.

O filme conta a história de Alison Scott, profissional dedicada e com futuro próspero na carreira em um canal de TV. Comemorando sua recente promoção, ela sai para uma "balada" e (depois de muitos drinques) acaba indo para a cama com o irresponsável Ben Stone. Alison espera que a noite seja rapidamente esquecida. Como o título explica, ela mudará a vida dos dois personagens.

Em Ligeiramente Grávidos, Apatow reafirma características que deverão pautar sua forma de conceber um filme: a não utilização de closes e takes fechados (o que prova que Apatow confia em seu roteiro e não recorre a piadas "fáceis" e físicas), a boa sintonia com os atores, a comédia derivada do constrangimento, os diálogos espertos e estruturados em gradação.

Katherine Heigl (recém premiada com o Emmy de melhor atriz coadjuvante em série dramática) oscila com talento entre os momentos dramáticos e cômicos da trama, algo muito difícil. Seth Rogen sempre soa perfeito para o papel de Ben Stone. Entre os coadjuvantes, Leslie Mann (Debbie) e Paul Rudd (Pete) provam novamente suas qualidades, especialmente o segundo.

Além dos 150 milhões arrecadados nas bilheterias dos EUA, Ligeiramente Grávidos conseguiu grande aceitação também entre os críticos. Eles cogitam até mesmo uma indicação ao Oscar de roteiro original para Apatow. Não seria um absurdo, é possível, mas bem improvável. Apesar de não acreditar, estou na torcida. É a melhor comédia de 2007, até o momento.