quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Cinema nacional passa por crise

A diminuição do público de filmes nacionais coloca em risco o futuro do setor no país.

O mercado cinematográfico brasileiro está vivendo sua maior crise desde a chamada "retomada" - ocorrida na segunda metade da década de 90 - devido a queda progressiva de espectadores das produções nacionais.

Os números chegaram a níveis alarmantes nesse ano. A participação de filmes brasileiros na arrecadação total dos cinemas no país caiu quase 3%, em relação ao ano passado. Em números brutos, isso significa que as produções nacionais desse ano juntas ainda não alcançaram sequer a bilheteria que o "fenômeno" Dois Filhos de Francisco fez sozinho em 2005.

A lista das dez maiores bilheterias do ano no país só inclui um filme produzido no Brasil: A Grande Família - O filme, assistido por pouco mais de dois milhões de espectadores e criticado pela exagerada influência "televisiva". Caso este seja o maior público de um longa brasileiro em 2007, será a pior performance de um recordista de bilheteria nacional nessa década. Veja lista dos maiores públicos de filmes brasileiros na década.

A queda de público tem um vilão principal: o avanço da pirataria. Tropa de Elite, o último filme brasileiro de 2007 com grande potencial de rendimento, já sofre com a pirataria antes mesmo de ser lançado. Enquanto outros dois filmes promissores, Cidades dos Homens - O Filme e O Primo Basílio, decepcionaram nas bilheterias, aparentemente mais interessado nos blockbusters ianques.

Em meio a todo esta crise, um ponto positivo: nunca o Brasil fez tantos filmes em um único ano. Estima-se que o país produziu cerca de 100 produtos cinematográficos apenas em 2007 (fonte: Diário do Nordeste). No entanto, já há quem defenda que a produção deve ser reduzida. Afinal, se a tendência se mantiver, não teremos público para consumir tantos filmes.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Paranóia (Disturbia)

Um pacote despretensioso e divertido. Agrada porque não tenta ser mais do que é.

No último fim de semana, assisti a dois filmes rotulados como "suspense" totalmente diferentes em si. Um foi Fora do Rumo (Derailed - 2005) e outro foi Paranóia (Disturbia - 2007), recém-lançado nos cinemas brasileiros. O primeiro vem cheio de auto-importância, considerando-se bem melhor do que realmente é. Não por acaso, é totalmente desagradável e insatisfatório: cheio de reviravoltas óbvias guiadas por uma direção apática, desperdiçando o ótimo elenco liderado pelo casal Clive Owen e Jennifer Aniston.

O grande trunfo de Paranóia, um dos grandes blockbusters da temporada, é a forma como foi tratado. Nunca se considera maior ou se propõe a ser melhor do que realmente é. No fim das contas, são pouco mais de 100 minutos de uma diversão despretensiosa, com deslizes previsíveis, porém resultado ligeiramente agradável e satisfatório.

A produção conta a história de Kale (Shia LaBeouf), um garoto traumatizado pela morte do pai e condenado a três meses de prisão domiciliar após esmurrar seu professor de espanhol. Privado pela mãe de todas as suas diversões habituais, o jovem encontra no ato de espionar os vizinhos um interessante passar o tempo. Tudo se complica quando Kale começa a suspeitar que um dos "espionados" é, na verdade, um assassino.

O diretor DJ Caruso leva maioria do filme no "piloto automático", raramente imprimindo um estilo próprio. Essa é uma característica já conhecida do diretor, advindo da TV e responsável pelo questionável Roubando Vidas e o razoavelmente eficiente Tudo por dinheiro. Em Paranóia, os (poucos) momentos mais emotivos são muito fracos e dispensáveis. Porém, Caruso consegue em uma cena específica (quando os jovens invadem a casa do suposto assassino) um resultado altamente tenso e frenético, naquele que é o grande momento do filme.

O roteiro de Christopher B. Landon e Carl Ellsworth possui problemas. Existem momentos pouco efetivos e mal trabalhados, mas que não chegam a comprometer o filme. Além disso, o unilateralismo do suspeito nunca consegue suscitar dúvida no público quanto a sua inocência. Essa era uma das maiores virtudes da produção que inspirou Paranóia - o clássico de Hitchcock Janela Indiscreta. No entanto, qualquer comparação entre ambos é uma covardia. A obra de 1954 é um suspense infinitamente mais denso do que sua versão contemporânea.

Shia LaBeouf carrega o filme com seu grande carisma e razoável talento, conferindo grande simpatia à Kale. David Morse aparece devidamente intimidador como o vizinho-suspeito. No papel de Ashley - interesse romântico de Kale -, Sarah Roemer pouco faz: apenas embeleza a tela e aparece em momentos estratégicos da trama. Interpretando Ronnie, Aaron Yoo é o (exagerado) alívio cômico do filme. O ponto negativo fica para a veterano Carrie Ann Moss (Matrix), terrivelmente inexpressiva como a mãe de Kale.

Paranóia não é uma obra de arte. Provavelmente, não mudará sua vida. No entanto, durante o tempo que estiver na sala de cinema, a produção te proporcionará eficiente diversão sem compromisso. Para os padrões de hoje em dia, isso já é um bom custo-benefício.



quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Série - Jogos Mortais

Inegável sucesso comercial, a série Jogos Mortais é o símbolo do atual cinema de horror.

Todos os gêneros cinematográficos passam por fases. Juntam-se a novas tendências, aproveitam técnicas recém-desenvolvidas e, principalmente, moldam-se ao gosto do seu consumidor. Isso faz com que, inevitavelmente, os filmes de um mesmo gênero mudem muito de época para época. O cinema de horror não foi/é diferente.

Na segunda metade dos anos 50, imperava produções de terror intimamente ligadas com a ficção científica - o que acabou rendendo uma centena de filmes (hoje) classificados como "B". No início dos anos 70, o horror seguiu uma linha psicológica, produzindo clássicos absolutos como O Exorcista. Já no final dos anos 70 e percorrer dos 80, o gênero viveu seu auge comercial, dominando as bilheterias. Os serial killers tornaram-se ícones da cultura pop e originaram franquias intermináveis, como Freddy Krueger e seu A hora do pesadelo.

Hoje, o espectador mudou. Em muito por causa da falta de qualidade dos diretores e roteiros, que passam filmes inteiros sem arrancar um susto decente do público e sempre recorrem ao uso do sobe-som exagerado para surpreender. Hoje, a ordem não é mais assustar, mas sim chocar. E a maior prova dessa nova fase é a série de filmes Jogos Mortais, que está próxima do lançamento de seu quarto exemplar.

Nela sobram sangue, tripas e um instinto mórbido que causa efeito instantâneo naquele que assiste. Exerce uma quase inexplicável atração, levando enxurrada de pessoas aos cinemas. É a metamorfose do terror cinematográfico, cada vez mais sanguinolento e chocante dentro de sua proposta. Aliás, essa é uma tendência do gênero através do tempo: desde os anos 50 até agora, a quantidade de sangue e vísceras é crescente nas produções. O grande problema decorrente de tal tendência é que se perde o limite entre o divertido (anos 80) e mórbido (atual).
Os três filmes já lançados possuem características em comum: o visual sujo, o clima semi-claustrofóbico e a direção em ritmo de video-clipe, sem preocupações estéticas. O primeiro é superior às continuações por dois motivos: a concepção do "jogo" é nova ao público e o clima de suspense está mais presente. Os outros são diretamente influenciados pela descoberta do poder comercial da idéia, por parte dos produtores. Tudo fica mais chocante e polêmico.

A nova sequência deverá estar no mesmo patamar dos anteriores, respeitando o exagero progressivo. Mais absurdos, tripas e sangue, mostrado em um ritmo ainda mais frenético e pesado, aproximando-se dos clipes de rock apresentados na MTV. E continuar rentável aos produtores. Principalmente, com a publicidade ainda mais pesada: a nova foi atrelar a produção com uma campanha de doação de sangue. Pelo menos, essa foi original.

domingo, 2 de setembro de 2007

Saudades

Possuídos marca o retorno do diretor William Friedkin aos holofotes. E ele traz junto um gênero esquecido.

Para aqueles que conhecem o cinema dos anos 70, William Friedkin é um nome bem importante. Ele ganhou o Oscar pela direção do clássico policial Operação França. Além disso, em 1973, dirigiu um dos maiores clássicos do cinema americano: O Exorcista. Enfim, é um grande diretor.

Pena que, depois da década citada, ele quase desapareceu. Fez um filme digno de atenção nos anos 80 - Viver e morrer em Los Angeles - e, de resto, muito pouco.

Por isso, Possuídos - tradução medíocre para o título original (Bug) - pode ser encarado como o retorno do cultuado diretor. Friedkin tem uma direção enérgica e conduz seus atores a grandes atuações. Não à toa, o filme causou frisson no último Festival de Cannes, levando o prêmio principal da Quinzena dos Realizadores.

Friedkin traz consigo ainda um gênero que parecia quase extinto: o suspense/terror psicológico (O Exorcista é um dos maiores exemplares deste gênero). Muito comum durante uma época contestadora da sociedade americana, que também representou o auge do diretor, o terror psicológico declinou com o crescimento do caráter comercial do cinema: menores censuras prévias, estilo convencional e a diminuição brutal do papel social das produções.

O filme é adaptação de uma peça teatral off-Broadway. Nele somos apresentados a Agnes White (Ashley Judd, em uma das melhores atuações da carreira), uma mulher solitária atormentada com a possibilidade do retorno do ex-marido, recém-libertado da prisão. Ela começa uma relação com Peter Evans (Michael Shannon, familiarizado com o papel que já tinha interpretado no teatro), um veterano de guerra com passado obscuro.

A primeira hora é toda baseada em diálogo. Friedkin utiliza tal tempo para criar um clima altamente tenso e claustrofóbico, intenso e totalmente eficiente. Aqui, fica clara a habilidade que o diretor possui para conduzir o gênero. Quando chegamos ao terceiro ato, a efetiva "ação", já estamos imersos a uma atmosfera nervosa, insana e auto-destrutiva.

Impressionante o dinamismo que o realizador imprime a obra, apesar de ela se passar em 95% do tempo no mesmo cenário - dentro de um quarto de hotel. A forma de filmar lembra (em talento e eficiência) o terceiro ato de O Exorcista, que é também quase todo em um cômodo. Certeira também é a mixagem de som, que beira a perfeição. O filme é tão singular positivamente que até certos deslizes no diálogo ("rei" e "rainha", no final do filme) são perdoáveis. Saber que William Friedkin voltou, tão bem quanto antes, é superior a qualquer erro.