quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Sem contra-indicações

Sem Reservas é o filme mais adorável do ano. Tudo funciona perfeitamente bem nessa fórmula bem açucarada.

Não há gênero cinematográfico mais batido em Hollywood do que a comédia-romântica. Roteiros simples e "açudarados", sem grandes pretensões, são especialidade da indústria cinematográfica norte-americana. Como esses filmes se diferenciam entre si? Pela competência de quem trabalha as idéias: atores e equipe técnica. É neste ponto que Sem Reservas, lançado recentemente nos cinemas brasileiros, consegue consolidar-se acima da média.

A personagem central da produção é Kate Armstrong (Catherine Zeta-Jones), regrada e perfeccionista chef de um sofisticado restaurante de Nova York. A vida dela muda profundamente quando sua irmã morre, deixando uma menina pré-adolescente para Kate cuidar. Se isso não fosse o bastante, o restaurante contrata um sub-chef excêntrico para auxiliar a recatada protagonista.

Para quem conhece o gênero, não é preciso raciocinar muito para adivinhar o final do enredo. Aí reside o grande mérito do diretor Scott Hicks e da roteirista estreante Carol Fuchs: eles conseguem manter o espectador entretido, mesmo que com um final óbvio sendo pintado na tela. O público preocupa-se muito mais com os personagens do que com o final da trama.

As atuações são perfeitas. Zeta-Jones compõe com o máximo de competência a protagonista. Aaron Eckhart empresta seu grande carisma ao sub-chef Nick Palmer. E a prodígio Abigail Breslin (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por Pequena Miss Sunshine) surpreende no papel da orfã Zoe. Ela é o que de melhor o filme tem, com uma atuação irrepreensível e adorável. Tudo isso somado dá a Sem Reservas uma simpatia e elegância só alcançada quando a "fábrica de sonhos" de Hollywood acerta no alvo.

O ponto negativo do filme é sua época de estréia. Infelizmente, Sem Reservas foi jogado em uma temporada repleta de blockbusters, o que fez com que ele passasse despercebido para parte do seu potencial público. Até mesmo a fria recepção da crítica americana é reflexo do erro estratégico de lançamento.

Resumindo: Sem Reservas é a prova definitiva de que mesmo o mais convencional dos roteiros pode ser transformado em um grande filme através do trabalho competente de seus realizadores. Além de ser uma raridade: é um remake (do alemão Simplesmente Martha - 2001) que consegue ser superior a obra original.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Aprontando nas telonas

Sucesso absoluto na televisão, a família Simpson chega arrasadora aos cinemas.

Quando a série de animação Os Simpsons estreou na televisão americana, em dezembro de 1989, ninguém imaginava o enorme sucesso que ela faria. Na época, poucos acreditavam que um desenho animado pudesse sobreviver na grade de programação adulta.

Passados quase 18 anos da estréia, ninguém duvida do sucesso da "família amarela". A série não continua com um conteúdo tão descritivo quanto o das primeiras temporadas - em que representava a típica família classe média ianque -, mas ganhou status inegável de fenômeno da cultura pop (especialmente, o patriarca Homer). Até hoje mantém uma grande audiência, influência entre todas as faixas etárias e lugar cativo na grade do canal FOX.

Mais do que nunca, a série e seus personagens parecem à prova de um fracasso. Por esse motivo, Os Simpsons - O Filme finalmente saiu do papel, após muito tempo em análise. Para se ter uma idéia, o roteiro da produção foi revisado 158 vezes antes de ser considerado definitivo, em um trabalho de quase cinco anos.

O sucesso da telinha foi refletido nas telonas. Os Simpsons - O Filme arrecadou 71 milhões de dólares em sua semana de estréia em território norte-americano. Até agora, só nos EUA, o filme fez 160 milhões de dólares de bilheteria. Chegando ao Brasil na última sexta-feira (17), o longa-metragem de animação tem tudo para acabar com o reinado de Duro de Matar 4.0 nos cinemas nacionais, líder de arrecadação das últimas três semanas.

No filme, Springfield passa por tempos difíceis quando seu lago atinge níveis exorbitantes de poluição. Esse panorama é agravado ao Homer jogar os excrementos de seu novo animal de estimação no tal lago. Então, a família protagonista começa a ser perseguida pela população de sua própria cidade, agora isolada do mundo exterior por uma redoma de vidro (obra do governo americano).

O segredo do sucesso do filme é não inovar. Tudo é estruturado como um longo episódio do programa televisivo, com o mesmo nível de piadas. São 87 minutos que soam como televisão exibida no cinema. A fórmula agradará em cheio aos fãs. Já aos que não são, o impacto da produção dependerá diretamente da empatia que se tem com os personagens e a série.

Os Simpsons - O filme não é o exemplo mais interessante de cinema. Por outro lado, é exemplar quando o assunto é sucesso. Ou seja, tudo que os produtores queriam.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

O fator Willis

Duro de Matar 4.0 é um grande filme de ação com Bruce Willis. E o ator faz toda a diferença.

Os tempos mudaram, não os ícones. Tal tese vem sendo comprovada nas salas de cinema atuais. Depois do sucesso do magnífico Rocky Balboa, foi a vez do policial John McClane ser retirado da "aposentadoria". Depois de quase 20 anos do longa original, Duro de Matar 4.0 chega aos cinemas.

Só nos EUA, a produção arrecadou mais de 125 milhões de dólares. O site americano Rotten Tomatoes (que arquiva e "mede" críticas cinematográficas das publicações ianques) apurou 80% de aceitação para o filme. Duro de Matar 4.0 pode ser considerado um sucesso.

Nessa nova seqüência, McClane é um homem diante do fracasso familiar e sem prosperidade no trabalho. E, por uma questão de acaso (esse é o lema da cinessérie: John McClane é o homem certo, mas na hora errada), acaba envolvido em uma trama de terrorismo virtual que ameaça causar um grande blecaute nos Estados Unidos.

Duro de Matar 4.0 não traz inovações aos filmes do gênero ação/aventura. O tema condutor da trama (informática) já soa um pouco batido, apesar de inegavelmente atual. Porém, os fãs da série sabem que a força dela sempre residiu-se nas grandiosas (e inverossímeis) cenas de ação. Nesse ponto, o filme não economiza. McClane dá de frente com carros, caminhões, helicópteros e até um jato militar - tudo muito empolgante e bem feito.

No entanto, o grande trunfo do filme é Bruce Willis. Não há ninguém melhor para ser John McClane. A intimidade do ator com o papel fica explícita a cada cena, fazendo o revival valer a pena. Com a liderança segura de Willis, o elenco de apoio pouco precisa fazer. A melhor é, de longe, Mary Elizabeth Winstead - intérprete da filha durona de McClane.

O roteiro é cheio de piadinhas, na maioria do tempo, eficientes. Os exageros, como em todo exemplar de Duro de Matar, estão lá. No entanto, no fim das contas, é isso que faz um grande filme de ação - junto com um astro como o "veterano" Bruce Willis.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Clássicos - O show deve continuar (All That Jazz)

Os musicais tiveram seu grande momento no cinema americano dos anos 40 e 50. No período, as produções do gênero lideravam as bilheterias. O mundo mudou, o público mudou e o cinema seguiu essa mudança. Marcadamente a partir da década de 70, os musicais tornaram-se raridades. Produzido em 1979, All That Jazz é um dos longas-metragens do gênero que merecem honroso destaque.

O filme é uma semi auto-biografia do escritor/diretor/coreógrafo Bob Fosse. Ele figura entre os gênios do gênero musical - tanto no cinema, quanto no teatro. Mantém até hoje a façanha de ser o único artista a ganhar, em um mesmo ano, os prêmios Emmy (máximo da TV americana), Tony (máximo do teatro americano) e Oscar.

Joe Gideon (Roy Scheider em atuação perfeita - participou de grandes filmes da época, como Tubarão) é o protagonista, representante de Fosse na tela. A história é construída sobre uma conversa de Gideon com uma misteriosa mulher vestida de branco (Jessica Lange - muito bem) - supostamente, a morte - passando a limpo a vida e escolhas dele. É uma metáfora da importância do filme para o diretor Bob Fosse: um veículo de análise.

Em tela, a visão que Fosse passa da sua vida (ou a vida de Gideon, como quiserem) é altamente negativa. O personagem é egocêntrico, mulherengo, flerta constantemente com a morte e não dá a devida atenção a sua família. O filme/musical só não deixa de ter um tom "alegre" porque Fosse conduz o filme com um humor cínico, fazendo comédia da tragédia de seu protagonista (por extensão, dele mesmo).

All That Jazz ainda é o documento definitivo do jeito Fosse de produzir algo. Tanto o perfil de trabalho traçado no filme, quanto o resultado final da obra. Fosse, como mostra o longa, era um workaholic perfeccionista ao extremo (a montagem inicial, ao som de George Benson, é espetacular). Todos os números musicais da produção são cirurgicamente conduzidos e pensados por ele. Na sala de pós-produção, era capaz de atrasar o lançamento de um filme por meses só para alcançar o impacto ideal em uma única cena. Não à toa, a produção soa ter cada segundo controlado perfeitamente por Fosse: construção e impacto no público.

Fosse dirige os momentos finais de Joe Gideon como se fosse um grande show. É tudo muito cínico, fruto da cabeça de um homem intenso e cheio de falhas na vida. O número final parece interminável, o que não chega a ser ruim, mas pode ser lido como algo metafórico. A jornada de Bob Fosse pela Terra esteve cheia de coisas ruins (como o mesmo não esconde), no entanto rendeu-lhe sua definitiva obra-prima no cinema.


All That Jazz concorreu a 9 Oscars em 1980, vencendo quatro deles.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Clássicos - Ruas de Fogo (Streets of fire)

O cinema dos anos 80 deixou de legado, entre outras coisas, uma infinidade de filmes B. Alguns deles, após várias reprises na televisão, chegam aos dias atuais com o status de cult. Uma das produções que estão nesse grupo é Ruas de Fogo (Streets of fire - 1984).

Como o próprio filme diz, a história se passa em "um outro tempo e outro lugar". E a construção desse cenário é muito interessante. Produto de um ótimo trabalho de direção de arte, a cidade aparenta situar-se em um período pré-apocalíptico, dominado pela violência. No entanto, o linguajar dos personagens, as roupas, veículos e outros elementos nos remetem aos EUA dos anos 50. O resultado é um visual estranhamente plausível, realístico e convincente ao espectador.

Ellen Aim (Diane Lane, no começo da carreira) é uma rock star raptada por um grupo de motoqueiros delinquentes chamados Bombers. Aliás, a cena do sequëstro no meio de um show transpira energia e é o ponto alto de Diane Lane no longa. Informado disso, Tom Cody (Michael Paré, convincente no papel do garoto-problema), um ex-namorado da cantora, volta para a cidade vai ao seu resgate. Entrará em choque com Raven (William Dafoe, sempre eficiente como vilão), líder dos Bombers.

O trabalho do diretor Walter Hill é o grande diferencial desse filme. Demonstrando grande habilidade, ele orquestra as cenas de ação com uma segurança extrema e mantendo um clima vibrante por grande parte da projeção. No final das contas, Hill entrega ao público 93 minutos pulsantes e cheios de adrenalina, ajudados por uma trilha sonora com sucessos da época.

Entre as atuações, merecem destaque também Rick Moranis e Amy Madigan. Os dois são o alívio cômico da trama. Moranis aparece um pouco mais sério do que o habitual (o que não quer dizer muito) como o empresário e namorado de Ellen Aim. Já Madigan incorpora perfeitamente a ex-soldado que ajuda Tom no resgate da cantora. Vale prestar atenção na fotografia do filme, que constantemente lembra um quadro de história em quadrinhos - trabalho sensacional de Andrew Laszlo.

Ruas de Fogo é uma diversão certeira e energética, com a duração ideal e a dose necessária de adrenalina. Uma autêntica e frenética fábula de rock and roll.

Lançado em DVD pela distribuidora Universal, em formato de tela widescreen e aúdio em português e inglês (ambos Dolby 2.0). Sem extras. Revisado dia 29/07/2007.