sábado, 5 de abril de 2008

Rolling Stones - Shine a Light

Não tinha como dar errado. Ainda assim, é impressionante.

Todos sabem que Martin Scorsese é um dos maiores diretores de cinema em atividade. O que poucos sabem é que ele também é um fanático por música. Sua filmografia está repleta de projetos musicais (excelentes, por sinal). Shine a Light é o seu novo longa nesta vertente, homenageando a lendária banda Rolling Stones.

Diferente do que vem sendo divulgado, Shine a Light não é um documentário. Trata-se da filmagem dos dois shows realizados pela banda no Beacon Theater, em Nova York. A intenção de Scorsese não é destrinchar a carreira do conjunto, mas apresentá-los em seu "habitat natural": o palco.

Os primeiros dez minutos de projeção são uma pertinente visão dos bastidores do espetáculo. Tanto para os Stones, quanto para Scorsese. E o diretor manda-nos um recado claro de quem está no comando: os roqueiros. Isso acaba refletindo-se na postura sempre preocupada do realizador, crescente com a proximidade do show, e acaba por render momentos particularmente engraçados.

Quando o quarteto entra no palco, Scorsese desaparece. Não só fisicamente. A postura do diretor após o início da apresentação é sentar-se e aproveitar, como qualquer outro espectador. E, acreditem, isto está longe de ser um pecado. Mais importante do que movimentos virtuosos de câmera é a simples intenção do realizador: captar toda a força que a banda (continua) emana(ndo) em palco, apesar da inegável idade.

Neste sentido, Scorsese alcança um brilhante resultado. O posicionamento das câmeras, o trabalho de edição e a fotografia primorosa de Robert Richardson contribuem para que Shine a Light torne-se um filme que transpira a energia e vibração captada das presenças de Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts.


Por toda a projeção, Scorsese também faz questão de mostrar as faces do quatro integrantes do Rolling Stones - castigadas, denotando o abuso de "substâncias ilegais" durante a trajetória de sucesso - e cria um interessante contra-ponto com a energia impressionante que os mesmos impõe ao show. Sem dúvida, esta "contradição" é um dos pontos altos da pouca influência do diretor.

A cada duas ou três músicas, são inseridos pequenos trechos de antigas e recentes entrevistas com os artistas. Econômicas, servem para dar uma pequena idéia do caminho percorrido pelo conjunto até chegar ao momento atual. Relações de amizade, rituais pré-apresentações, início de carreira - tudo recebe um espaço nestas inserções. Talvez, aqui resida o único erro de Martin Scorsese: as entrevistas deixam um gosto de "quero mais" no público, poderiam ser mais constantes.

O show, matéria-prima de Shine a Light, não deixa a desejar. Grandes sucessos do conjunto estão presentes, bem como algumas ótimas músicas de outros intérpretes. O ponto baixo são as participações especiais, nem sempre pertinentes e que pouco agregam ao desempenho dos "protagonistas". Jack White nada acrescenta em "Loving Cup". Cristina Aguilera está irregular com Jagger em "Live with me". Seguro e espetacular mesmo, só Buddy Guy e seu vozeirão em "Champagne & Reefer".

Shine a Light é, sem dúvida, menos ambicioso do que outros projetos "musicais" de Martin Scorsese. Por exemplo, os excepcionais The Last Waltz (O Último Concerto de Rock, 1978), No Direction Home (2005) e a série de documentários The Blues (em parceria com outros diretores). No entanto, não é uma homenagem/celebração de menor calibre. É impressionante, como os já citados, ao seu próprio modo.