Senhores do Crime (Eastern Promises) é mais um exemplo de material aparentemente comum elevado a outro nível por causa da competência dos profissionais envolvidos em sua produção.
Anna, parteira de um hospital londrino, testemunha a morte de uma jovem durante um parto. Ela resolve procurar a família da garota para dar a notícia do falecimento e buscar por parentes do bebê recém-nascido. Esta investigação acabará por colocar Anna em contato com a perigosa máfia russa e o submundo de Londres.
O roteiro de Steven Knight não explora todas as possibilidades que sua promissora premissa oferece. Knight resolve apostar nas personagens e a relação entre elas, em detrimento da trama.
Um dos fatores que definem o sucesso do longa é a direção do experiente David Cronenberg. Senhores do Crime é repleto de violência e o realizador sabe lidar como poucos com tal característica. A falta de pudor de Cronenberg casa perfeitamente com o filme, sempre conseguindo consolidá-lo como a experiência desagradável que pretende ser. O diretor ainda canaliza muito bem o melhor aspecto oferecido pelo roteiro: o retrato envolvente da máfia russa.
Interpretando a parteira Anna, Naomi Watts tem uma atuação eficiente, nada além disso. A impressão que fica é que o papel não exige muito esforço da atriz. Como Semyon, patriarca mafioso, Armin Mueller Stahl tem como principal trunfo conseguir fazer convincente sua transformação durante o longa. Enquanto isso, Vincent Cassel não parece ser desafiado pelo papel de Kirill, o filho inseguro e antipático de Semyon.
A incorporação do motorista Nikolai pelo ator Viggo Mortensen merece destaque absoluto. Enigmático, frio e visceral, Mortensen transforma seu personagem no principal atrativo da projeção. O Nikolai retratado pelo ator é um ponto de interrogação, o que torna plausível as reviravoltas propostas pelo roteiro para o personagem. A única certeza que temos sobre o motorista é de seu natureza violenta. Uma atuação explêndida.
O trabalho de fotografia concebido por Peter Suschitzky é coerente com o tom da trama, potencializando o clima obscuro e retratando com precisão o submundo de Londres. Enquanto isso, a montagem de Ronald Saunders é precisa e fria, tendo seu ponto alto na realista luta de Mortensen em uma sauna, cena polêmica pela nudez do protagonista.
Senhores do Crime supera um roteiro com tratamento convencional através do trabalho competente da maior parte dos seus envolvidos. Especialmente sem Cronenberg e Mortensen, este filme estaria condenado a passar sem brilho pelos cinemas. No entanto, como Conduta de Risco, o longa não deverá agradar o público médio - seja por sua obscuridade, seja pela postura alheia que desenvolve com o espectador.
Indicado apenas ao Oscar de melhor ator (Viggo Mortensen), Senhores do Crime pode ser considerado parcialmente injustiçado pela Academia. A direção de Cronenberg oferece muito mais recursos e talento do que a de Tony Gilroy, por exemplo (indicada por Conduta de Risco). A excelente trilha sonora e edição também poderiam ter sido lembradas pelos votantes.